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El Niño pode chegar à Bolsa pelo supermercado

Foto: Pexels

Por: Marco Ribeiro Noernberg

09/09/2026 - 10:09 - Atualizada em: 09/09/2026 - 10:46

O fenômeno climático que volta ao radar em 2026 não preocupa apenas produtores rurais. Se confirmar a intensidade projetada, pode influenciar preços de alimentos, energia, inflação e até o comportamento da Bolsa nos próximos meses.

Quando o mercado fala em risco, normalmente pensamos em juros, eleições, inflação ou geopolítica. Pouca gente coloca o clima nessa lista, embora alguns dos maiores movimentos da economia tenham começado justamente por ele.

É o caso do El Niño. O fenômeno, que se forma a partir do aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, voltou ao radar dos economistas porque as projeções indicam um evento forte, com alta probabilidade de permanecer ativo até 2027. À primeira vista, parece um assunto restrito ao agronegócio. Porém, seus efeitos costumam percorrer um caminho bem mais longo: começam no regime de chuvas, passam pelas lavouras, chegam às commodities, aparecem nas prateleiras do supermercado e, em alguns casos, terminam influenciando decisões dos bancos centrais.

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Essa cadeia de transmissão ajuda a explicar por que o mercado acompanha o fenômeno com mais atenção do que parece.

No Brasil, o impacto dificilmente será uniforme. Enquanto o Sul tende a registrar chuvas acima da média, parte do Centro-Oeste, do Sudeste, do Norte e do Nordeste pode enfrentar períodos mais secos. Para a agricultura, faz toda a diferença. A soja costuma apresentar maior resiliência em boa parte do país, embora o MATOPIBA (região que reúne os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) concentre riscos importantes. Ou seja, não existe um único “efeito El Niño”; existe uma combinação de vencedores e perdedores que muda conforme a região, a cultura e o momento da safra.

Em agosto, o índice global de preços de alimentos da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) atingiu o maior nível desde o fim de 2022. Cereais, óleos vegetais, carnes, laticínios e, principalmente, açúcar voltaram a subir, impulsionados por problemas de oferta em diferentes regiões produtoras do mundo. Não é correto atribuir todo esse movimento ao El Niño, mas o clima passou a ser uma variável importante justamente num momento em que o mercado tentava consolidar uma trajetória mais confortável para a inflação.

Se os alimentos voltarem a pressionar os índices de preços, o processo de desinflação pode perder velocidade. No Brasil, onde a política monetária continua bastante restritiva, isso ganha peso adicional. O Banco Central não decide os juros olhando apenas para o preço do tomate ou do açúcar, mas uma inflação de alimentos mais persistente pode dificultar o caminho até a meta e alterar as expectativas do mercado. A própria XP estima que os efeitos mais relevantes sobre alimentos podem aparecer com mais força a partir do quarto trimestre.

A energia também entra nessa equação. Dependendo da distribuição das chuvas, os reservatórios podem sofrer pressão e aumentar a necessidade de geração térmica, que tem custo mais elevado. Quando isso acontece, o impacto deixa de ser apenas climático e passa a aparecer também na conta de luz, ampliando o efeito sobre a inflação.

Para quem investe em ações, a leitura talvez seja ainda mais interessante.

O El Niño muda as condições em que várias teses já existentes são avaliadas. Empresas do agronegócio podem enfrentar realidades completamente diferentes dependendo da localização de suas operações. Companhias de alimentos lidam com margens pressionadas quando o custo das matérias-primas sobe. Varejistas podem sentir um consumidor mais cauteloso caso a inflação volte a ganhar força. Ao mesmo tempo, produtores expostos a determinadas commodities podem encontrar um ambiente de preços mais favorável.

O mercado costuma precificar rapidamente aquilo que consegue medir. O desafio, neste caso, é que o clima não oferece respostas exatas. Ele altera probabilidades, desloca expectativas e obriga investidores a revisarem cenários antes mesmo de os números aparecerem nos balanços das empresas.

Talvez seja essa a principal lição do momento. O El Niño não entra na Bolsa pela porta da frente. Ele chega discretamente, primeiro pela lavoura, depois pelo supermercado, passa pela inflação, influencia os juros e só então aparece na precificação dos ativos.

Quando o mercado percebe esse movimento, muitas vezes ele já começou muito antes da primeira gota de chuva.

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Marco Ribeiro Noernberg

Sócio e Head de Research e Líder Advisor na Manchester Investimentos, com formação em Administração e especialização em Mercado de Capitais. Possui certificações PQO, CNPI-P, CGA e CFP®️, atuando em análise de investimentos e planejamento financeiro.