Por Paula Schmitt

Para quem acha que a grande causa das opiniões equivocadas é a falta de conhecimento, o professor de Direito e Psicologia da Universidade de Yale Dan Kahan tem uma notícia surpreendente: mesmo diante de evidência numérica e estatística, pessoas com crenças políticas estabelecidas têm dificuldade de entender uma realidade que desafie suas convicções.

No experimento publicado em 2013, quando participantes foram apresentados com gráficos mostrando a eficiência de um creme antialérgico, eles conseguiram compreender e interpretar os números corretamente, entendendo o que o estudo comprovava. Mas quando o mesmo gráfico tratava de algo político sobre o qual esses mesmos participantes já tinham uma posição –como o efeito do porte de arma no aumento ou redução de crime, a eficácia da vacinação infantil, os distúrbios climáticos– eles não conseguiam entender a matemática por trás da teoria.

 

O estudo indicou algo ainda mais aterrador: quanto maior o conhecimento de matemática, maior foi a dificuldade em entender os números que contradiziam a convicção de quem os analisava.

Segundo Kahan, pessoas com mais inteligência e conhecimento fortalecem suas convicções identificando e selecionando apenas fatos que as corroborem, e assim correm o risco de ficar mais radicalizadas do que pessoas que têm menos instrumentos intelectuais para confirmar seu posicionamento. Em outras palavras, o que venho dizendo há anos parece se confirmar: a falta de honestidade intelectual é tão ou mais danosa do que a falta de intelecto.

A desonestidade intelectual acontece quando defendemos uma ideia ou ponto de vista com argumentos ou dados que sabemos ser inválidos, incompletos, ou inócuos.

Ser intelectualmente desonesto não é o mesmo que mentir –é possível praticar esse tipo de desonestidade sem dizer nenhuma inverdade. Quem achava que os escorregões verbais de Dilma eram inadmissíveis e agora defende os erros de Português do ministro da Educação, Abraham Weintraub, está sendo intelectualmente desonesto.

A pessoa que critica o governo anterior por causa da alta do dólar, mas no governo atual defende o dólar alto porque ele incentiva as exportações, não está mentindo, mas está sendo intelectualmente desonesta.

Quem defende a humanidade de um estuprador mas não consegue ter a mesma misericórdia por uma mulher que grita “macaco” a um jogador de futebol negro está provavelmente sendo intelectualmente desonesto, ou tem valores completamente desvirtuados.

Existem vários tipos de desonestidade intelectual, e muitos se valem de falácias facilmente identificáveis. Uma das mais comuns é aquela que confunde uma ideia com o seu emissor.

Anos atrás eu enviei meu artigo sobre o Líbano na Rolling Stone para um professor de mestrado em Beirute. Eu estava orgulhosa porque achei que tinha conseguido capturar a grandeza daquele país fisicamente tão diminuto.

Uma das coisas que me ajudou naquela síntese foi uma metáfora sobre xadrez e gamão que li num livro do historiador Bernard Lewis. Lewis compara orientais e ocidentais e a maneira como veem a predestinação e o livre arbítrio. Para muitos no Ocidente, a vida seria como um jogo de xadrez, onde temos poder sobre todos os nossos movimentos e escolhas. Para outros, no Oriente, a vida seria mais como um jogo de gamão, em que a sorte tem papel importante, e ganha quem melhor souber usá-la a seu favor (a sorte dos dados somada à inteligência da colocação das peças).

Para mim, e aparentemente também para Lewis, o gamão é mais adequado como metáfora para a vida do que o xadrez. Mas para meu professor a metáfora era inválida, porque vinha de um intelectual que não apenas era um “orientalista”, mas também “sionista”. Além disso, disse meu professor, defensivo, o xadrez foi inventado no Oriente. Foi ali que entendi outra motivação para uma desonestidade intelectual que é menos consciente de si mesma –o complexo de inferioridade, aquele sentimento que interpreta até elogio como insulto. O politicamente correto é quase todo construído sob essa ótica.

O politicamente correto é uma fonte muito rica em desonestidade intelectual porque ele é um código de regras em que o que está sendo dito é irrelevante –o que interessa é quem está dizendo, e sobre quem. Discutir com pessoas que defendem o politicamente correto é como tirar par-ou-ímpar com quem diz “par eu ganho, ímpar você perde”.

Veja o caso das fantasias de Halloween: é politicamente incorreto se fantasiar de Hitler porque isso é uma homenagem ao líder nazista, mas é incorreto se fantasiar de índio porque isso é um insulto aos nativos. Quem é que tem verdadeiro preconceito? Quem é que acha que Hitler é digno apenas de homenagem, e os índios apenas de insulto?

Generalizações e falsos agrupamentos são extensivamente usados em discussões pouco honestas. Prestem atenção nas suas redes sociais. Quando morre um policial e existe alguma comoção, sempre tem um pra perguntar em tom de debate socrático “mas quantas pessoas são mortas todos os dias pela polícia?” O inverso também acontece: é só algum inocente morrer na mão da polícia e vai ter gente dizendo que “por outro lado” morre muito policial no Brasil. Ambos argumentos são estúpidos, claro, e essa paridade forçosa só poderia ser usada se quem morreu foi também quem matou.

No politicamente correto, generalizações são erradas, a não ser que sejam positivas sobre aqueles que foram eleitos vítimas, e negativas sobre aqueles condenados a algozes.

É por isso que se pode, tranquilamente, acusar alguém de ter um comportamento de “macho branco”, mas jamais dizer algo como “coisa de preto.” No meu worst-seller Eudemonia eu conto um caso que me aconteceu na mesma American University of Beirut onde eu fiz meu mestrado. Estávamos em um grupo de discussão e notei uma guria com uma camiseta dizendo “I love black people”. Eu perguntei se podia tirar uma foto. Ela respondeu que sim, orgulhosa.

“Se você quiser uma dessas eu te mostro onde comprar”, ela ofereceu.

“Não, não, obrigada”, eu respondi. “Eu acho essa camiseta racista. Pretos são indivíduos com personalidades diferentes, eles não são ursos panda”.

A desonestidade intelectual mais prejudicial hoje é aquela que controla as tribos que se formaram na sociedade e nas redes sociais. Em 1º lugar, cria-se uma realidade impermeável onde apenas as fontes autorizadas podem entrar –notícias que questionem essa realidade ficam de fora. A partir daí, cria-se também o pensamento correto que controla as conclusões dos membros da tribo. Ninguém ali está interessado em debate, na dialética. Ali só existe uma intenção –a confirmação.

A imediaticidade das notícias e do feedback nas redes sociais também atrapalham a busca pela verdade, porque o tempo é fator crucial para o julgamento. No meu antigo fone Nokia, eu tinha um jogo de xadrez com vários níveis de dificuldade. A única diferença entre o nível mais baixo (chimpanzé) e o mais alto (Kasparov) era o tempo que o computador tinha para calcular a melhor jogada.

Cabeças saudáveis são frequentemente habitadas por um tribunal em que debatem um advogado e um promotor. Agimos alternadamente como cada um deles, mas quando buscamos a verdade o nosso papel maior é o de juiz –aquele ser idealizadamente isento que ouviu os melhores argumentos a favor e os melhores argumentos contra, e só depois tomou a sua decisão. Todos os dias somos juízes –decidimos pela veracidade ou falsidade de ideias, vantagens ou desvantagens de leis, benefícios ou defeitos de medidas econômicas.

Claro que é mais fácil usar a paixão, gostar ou desgostar de um líder político, e assim ir carimbando tudo que ele fizer com “aprovado” ou “rejeitado”. Isso nos poupa de ter que analisar cada uma das ideias, e nos dá o conforto emocional de estar sempre no seio da mesma tribo.

O mais inteligente, contudo, é que tenhamos acesso aos melhores advogados e melhores promotores –defensores e detratores de ideias, não de pessoas, gente independente e técnica que consegue analisar com frieza além de paixões pessoais. Aliás, cabe aqui uma citação frequentemente atribuída a Eleonor Roosevelt: “Mentes elevadas discutem ideias; mentes medianas discutem fatos; mentes pequenas discutem pessoas”.

 

Paula Schmitt é jornalista, escritora e tem mestrado em ciências políticas e estudos do Oriente Médio pela Universidade Americana de Beirute. É autora do livro de ficção "Eudemonia" e do de não-ficção "Spies". Escreve semanalmente para o portal Poder 360.