“♫ Todos os dias quando acordo/ Não tenho mais o tempo que passou/ Mas tenho muito tempo/ Temos todo o tempo do mundo “ (Tempo perdido, Legião Urbana).

Quem nunca se deparou com aquela situação de ter várias opções e ficar em dúvida sobre qual escolher que atire a primeira pedra. Pode ser roupa, ou um buffet de sorvetes, ou os lançamentos na livraria ou na porta do cinema.

Quantos já pensaram, meio desalentados: “Seria tão mais fácil se não houvesse tantas opções...”. Dá até para lembrar a famosa frase atribuída a Henry Ford sobre sua linha de produção de automóveis Ford T: “Você pode escolher qualquer cor, desde que seja preta”. Se ele disse isso mesmo, ninguém tem certeza. O fato é que atualmente a história está bem diferente.

A era do conteúdo (quase) infinito

Hoje quem quiser passar horas na internet escolhendo qualquer coisa sobre qualquer assunto poderá fazê-lo, sem dúvida. Pode passar dias, semanas, na realidade. E se quiser procurar bem procuradinho, poderá passar a vida inteira.

Há, na grande rede, um verdadeiro universo de informações. Pode-se consumir tudo. Se quiser sites jornalísticos, há aos borbotões. Se for vídeos de música, milhões. Filmes, viagens, bancos, carros, lojas, tem de tudo.

As informações parecem infinitas na internet. Como disse o Gato de Cheshire, para quem não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho serve. E isso nos leva ao paradoxo.

O paradoxo da escolha

Ter escolhas demais pode paralisar em vez de agilizar. Deparar-se com um excesso de opções pode levar a escolha nenhuma. Quem assina Netflix provavelmente sabe do que estou falando: passa-se tanto tempo escolhendo um título para assistir que, no final das contas, muita gente desiste de ver o filme e vai dormir ou fazer outra coisa. Muitos selecionam filmes para “Sua lista”, pensando que, assim, será mais fácil da próxima vez. E quando chega a próxima vez, começa todo o périplo novamente. Este é apenas um serviço de streaming de filmes. Há vários outros, mas a dinâmica, em regra, é a mesma.

Quem é anterior ao tempo do digital (ou seja, é cringe na linguagem da garotada de hoje) lembra das televisões com seletor de canais. Seja porque havia apenas três, quatro ou cinco emissoras de televisão, seja porque dava preguiça levantar toda hora para ir até o aparelho de TV para trocar de canal, assistia-se o que estava passando ali mesmo.

Então vieram os controles remotos, a TV a cabo com centenas de canais e a internet com uma infinidade de opções, a começar com os tais serviços de streaming que, por si só, já têm uma infinidade de opções.

Imagina-se que quanto maior o número de opções, maior a liberdade. Será que é isso mesmo? Será que isso não tem nos feito reféns do tempo ou da indecisão? Não temos mais o tempo que já passou, mas ainda temos todo o tempo do mundo (se não nos perdermos escolhendo bobagens demais...).