*Por Rafaela Thomé

Meu pai esperava ansioso a chegada do mês de agosto. Para ele, agosto significava fugir da rotina. Foi assim por mais de 6, enquanto eu morei em São Paulo, a trabalho.

Eram três dias inteiros andando de metrô, usando mochila e tênis, fazendo compras na 25 de março com o dinheirinho que eu dava de presente pra ele, visitando museus, exposições, tomando chimarrão e comendo sem culpa tudo que dava na telha ou aparecia na frente - o que era proibido enquanto ele estava em Caçador.

Passávamos o fim de semana do dias dos pais juntinhos em Sampa. Pra mim, levar ele para São Paulo era aquele tipo de presente que você dá e acaba aproveitando o presente mais do que a pessoa presenteada. Acho que ele sabia disso, de algum modo.

Na sexta, enquanto eu trabalhava, ele tinha o dia só pra ele. Não sei tudo que ela aprontava, mas sempre voltava com sacolas cheias de livros adquiridos em sebos. Aos sábados, éramos duas crianças risonhas no Mercado Municipal, dividindo sanduíche de mortadela, bolinho e pastel de bacalhau, sempre acompanhados de chopp bem gelado.

Na saída do mercadão, comprávamos aquelas frutas açucaradas para o lanche. À noite, pizza é claro. Na capital da pizza, tinha que ter pizza. E no domingo, ah… a gente tomava sol num parque qualquer, chimarrão na mão e lá começava a festa gastronômica outra vez: caldo de cana com pastel de carne. E depois tinha almoço, pode isso? Cupim craquelado servido na telha num boteco perto de casa.

Meu pai faleceu e eu voltei para o sul, para mais perto das minhas raízes. Escolhi viver e morar em Joinville, cidade que sou completamente apaixonada e grata por tudo que tem me proporcionado. Fico imaginando como seriam nossos dias de agosto por aqui.

Certamente iríamos ao Mercado Público tomar chopp gelado e provar delícias de bacalhau. Chimarrão na Expoville com caldo de cana, Estrada Bonita, pescar no Piraí, nos acabarmos nas petiscarias da Babitonga. Ele amava feijoada e eu também. Levaria ele no Botequim do Barão.

Não sei qual é sua história com seu pai, a minha sempre foi em volta da comida, onde a gente se nutria com conversas infinitas sobre qualquer tema, nos alimentávamos de amor e a engordávamos naqueles três dias exclusivos de pai e filha. Mas isso não importava, porque tínhamos doze meses pra recuperar a forma. O quilos a mais iam embora, as memórias ficam até hoje. E que delícias de memórias.

Essa é a minha homenagem a todos os pais que se permitem ter momentos de amor com seus filhos. Que sorte eu tive!

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