*Por Rafaela Thomé

A única coleção que eu tive na vida foi de papel de cartas. Lembro de ter tudo catalogado e separado por tipo: com e sem envelope, temático, com cheiro. Confesso que nem era minha praia, eu curtia mais era o movimento das relações sociais em torno das trocas.

As permutas eram muito bem pensadas: um com cheiro por outro de cheiro, senão tinha que rolar um papelzinho a mais pra compensar a troca por um papel especial.

Em algum momento aqueles papéis deixaram de ser importantes e foram doados. Gostaria de saber se ainda estão guardados com alguém ou foram doados novamente; se viraram peça de colecionador gente-grande e se tornaram valiosos ou se foram para o lixo, como algo sem valor.

Esses dias eu vi um valor especial nesses papéis, um sentimento diferente do que eu sentia na época de menina, lá em Caçador. Acho que quando a gente começa a fazer as coisas que realmente ama, nossa percepção fica mais sensível para as coisas importantes da vida. É como se o tempo todo estivéssemos atentos aos sinais. O sinal, dessa vez, veio das minhas pilhas de potinhos, na cozinha.

Eu, que depois de adulta nunca fui de acumular nada e sempre me vi como a rainha da doação, de repente, me vi como a rainha dos potinhos, dos temperos, dos sais. Parada na cozinha, olhei para as prateleiras e estava tudo ali, aos montes. Fiquei feliz por ver coisas sendo acumuladas (ou colecionadas) e sendo usadas, todas com muito valor.

Começou com a mania de potinhos. Potinhos de porcelana, vidro, cerâmica, fibra de bambu, plástico; potinho pequeno, médio, grande, potinho pra patê, potinho pra remédios, pra provar a comidinha que está saindo do fogão, potinho pra comer ou potinho só pra ficar olhando, servindo de enfeite.

Cheguei a trazer 42 potinhos como bagagem de mão quando fui ao Marrocos. Eles sobreviveram a 15 dias de trip até chegarem ao seu novo lar-doce-lar. Muitos foram dados como presente, mas a maioria são meus e os uso, todos. Aqui em casa quase não tem prato, a gente come nos potinhos ou cumbucas.

Outra coleção é de sal. Senti-me criança na Disney quando descobri a variedade de sais à venda no mundo e seus diferentes usos e características. Deveria existir uma faculdade sobre o tema, eu me matricularia.

Também virei a maníaca dos temperos, de dois tipos: os in natura - que cultivo ou compro fresco, e os que vendem a granel (ou em potinhos). Ah, os potinhos...

Tenho 4 cestas de temperos na minha bancada de apoio, todos bem identificados. Assim como os potinhos, que estão sempre muito bem organizados. Assim como os papéis de carta, sempre muito bem distribuídos por sessões, cores, importância, cheiro, emoções e sensações que me causavam.

Eu, que tenho a culinária afetiva como propósito de vida, de repente vi nos meus antigos papéis de carta um bom exemplo de afetividade. Tudo o que nos afetou de forma muito gostosa e positiva no passado fica marcado na memória. E essas memórias sempre poderão ser usadas novamente.

São memórias afetivas presentes em nós para nos ajudar a planejar melhor, a organizar potinhos nas prateleiras, temperos no armário ou, simplesmente, para dar mais sabor à vida. A receita é sempre estar de coração aberto e atenta aos sinais.

E falando de receita, lembra daquela de nhoque de batata com o molho de linguiça e bacon que contei semana passada? Você a encontra no meu blog, www.vidacomfarinha.com.

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