Em 4 de abril de 1968, Memphis (USA) matava um homem, mas não calava uma voz. O emblemático “I have a dream” continuaria ecoando mundo afora. Se passaram cinco décadas e as palavras de Martin Luther King, Nobel da Paz de 1964, seguem inspirando os defensores da igualdade de direitos.

King não queria muito e, ao mesmo tempo, queria o impossível. Ele que passara grande parte de sua infância brincando com dois vizinhos brancos até ser segregado, alimentava a natural possibilidade de viver com uma alma negra e branca simultaneamente. Com isso admitia ser diferente, mas não desigual. Um homem além de seu tempo, que tinha consciência de sua origem e condição. Sabia ele, dentre poucos, que nossos ancestrais chegaram ao norte da Europa há cerca de 40 mil anos. Que começava se revelar ali, a diversidade de caracteres físicos, por conta do processo de deslocamento e, por fim, a praga do racismo. Como também não ignorava que antes disso, passáramos cinco milhões de anos estabelecidos, com cor padrão, em berço africano.

Particularmente penso que, desde que descemos das árvores, muito mais nos transformamos do que evoluímos. O que não significa dizer que uma linhagem mais adaptável de primatas, não tenha sido uma extraordinária obra divina. Minha fé diz que foi. Apenas denego Adão e Eva e outras carolices. Ocorre, por conseguinte, que além da dor na coluna vertebral, herdamos a peste do racismo, cuja raiz histórica envolve uma miríade de teorias, que sintetizo tudo em duas principais visões: i) a “visão classificatória reducionista”, como invenção hierarquizada do modernismo ocidental, apoiada no pseudo princípio de que os caracteres físicos se convertem em raça e influenciam o comportamento; e ii) a “visão teológica” baseada em passagens bíblicas, como a de Noé que amaldiçoa seu único filho negro, profetizando que seus descendentes seriam escravizados pelos descendentes de seus irmãos. Essas duas equivocadas visões têm legitimado barbáries históricas como a escravidão, o holocausto, o apartheid e genocídios diversos.

Luther King desafiou e foi vítima fatal desse longo processo histórico mal assimilado e malconduzido pelo homem, mantendo raízes profundas. Quis ele algo que se mostra espinhoso e circunscrito ainda hoje: negros e brancos vivendo em paz, com liberdade, justiça e direitos iguais. Seu algoz e insano, James Earl Ray, não era dotado de inteligência suficiente para entender isso, e o assassinou por uma única razão: seu ódio racial. Confesso que tenho explorado estudos de cunho antropológico, biológico, sociológico e teológico buscando a origem desse sentimento. A medida que me aprofundo nas pesquisas, mais me convenço de que a raiz do racismo está umbilicalmente relacionada à um vírus causador de certa disfunção no arcabouço cromossômico, provocando uma anomalia intelectual denominada “burrice genética”. Embora se trate de um vírus resistente, o legado de Luther King, feito antídoto esperançoso, perdurará.