Foto: pt.dreamstime.com
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Ao contrário dos estados ‘confessionais’ ou ‘teocráticos’ (como o Vaticano, da Igreja Católica, ou a Arábia Saudita, da Confissão ‘Islamita’), num estado ‘secular’ ou ‘laico’, o poder do estado é oficialmente imparcial em relação às questões religiosas, não apoiando nem se opondo a nenhuma religião, bem como tratando todos os seus cidadãos de maneira igual, independentemente da sua religião ou, inclusive, não-religião.

Contudo, um estado ‘laico’, como o Brasil é classificado, não pode ser considerado ‘ateu’ ou ‘agnóstico’ (que ‘não crê em Deus’, como proclamava a extinta União Soviética). Reza, quanto a isto, na Constituição Federal Brasileira, que ela foi elaborada ‘sob a proteção de Deus’.

Com a recente canonização de mais uma santa católica brasileira, a ‘Santa Dulce dos Pobres’, vem à tona, novamente, o ‘simbolismo religioso’ (dotação de ‘poder de intermediação junto a Deus’, de súplicas e graças, pelo status de caridade, bondade e dedicação, em vida) em contraponto a ‘propósitos bem terrenos’ (retomada do espaço católico, na sociedade e política, perdido para as vertentes neopentecostais).

Independentemente da laicidade ou não de um estado, é comum que famílias empresárias cultuem uma espiritualidade ou religião, quase sempre com origem na tradição, ou seja, nos primórdios vivenciais de seus antepassados.

Assim, muitas de suas ações amparam-se em valores, explicações e dogmas espirituais ou religiosos, valendo lembrar que a ‘espiritualidade’ pode ser definida como uma forma de relacionamento (cultivo da presença do espírito) com o mundo, com o outro, consigo mesmo e com Deus e a ‘religião’ (do latim ‘religare’) como uma forma (uma ‘janela para a espiritualidade’), um método de se conectar à Força Divina, que pode ser, por exemplo, Alá ou Deus, dependendo, da religião professada.

Na maior parte das vezes, identifica-se que fatores de cunho espiritual ou religioso influenciam positivamente no ambiente empresarial, isto principalmente devido às ‘virtudes’ embutidas em seus valores e princípios.

Contudo, há casos, como, por exemplo, quando o credo religioso é fator discriminatório ou à beira do que se pode chamar ‘fanatismo’, que a influência religiosa no negócio não é positiva, pois contrasta e choca-se com a diversidade, isto é, credos outros de funcionários, fornecedores, clientes e comunidade no entorno.

Ritos espirituais ou religiosos, que permeiam demasiadamente a empresa, como por exemplo, a instituição de momentos de oração no início do expediente ou pausas para tal durante o mesmo, bem como ‘dias santos’ (sem expediente) podem ser apontados como exemplos de extremismos advindos de ‘cegueiras’ pela fé, crenças e cultos dogmáticos.

A espiritualidade e a religião devem moldar a habilidade de cada qual em refletir comparar, conhecer e julgar, mirando no bom senso, prudência, justiça, direito, causa e motivo. Ou seja, em busca de caminhos para o bem de todos e da empresa, os valores espirituais e religiosos devem construir, principalmente, as fronteiras do negócio, norteando e direcionando suas decisões, mas, nunca cerceando a liberdade alheia de pensar e seguir convicções transcendentais próprias.

O fundamental é que, por meio do equilíbrio e coerência, sem excessos de racionalidade, de emoção e, muito menos, de ‘fundamentalismo’, seja possível a líderes e subordinados vencer maus hábitos, atitudes e comportamentos inadequados e fazer a empresa prosperar.

Quanto a isto, vale lembrar o que disse Madre Teresa de Calcutá: “Dê ao mundo o melhor de você e, se isto não for o bastante, dê o melhor de você assim mesmo, porque, no final das contas, é tudo entre você e Deus. Nunca foi entre você e os outros”.

Por fim, considerando que, na relação fornecedor - cliente (sendo este, o verdadeiro ‘motivo’ da existência do primeiro), o que agrega valor é, sempre, o pleno atendimento às necessidades do segundo, não há porque uma empresa, por exemplo, dedicada à produção de alimentos, deixar de adotar ritos, práticas e exigências essencialmente religiosas, com origem em preceitos oriundos de textos sagrados, como o Torá (o livro sagrado dos judeus), na produção de alimentos Kosher, ou o Alcorão (o livro sagrado dos muçulmanos), na produção de alimentos Halal.

Ou seja, em casos específicos, “negócios, negócios... religião, nunca à parte” e, sim, como ‘parte fundamental’!