No Brasil, quem veste terno e gravata (advogados, por exemplo) ou roupa toda branca (médicos, dentistas e fisioterapeutas, por exemplo) vira ‘doutor’, como forma de tratamento de respeito, por quem se considera num patamar sócio-econômico-escolar inferior.

Mas, afinal, qual a origem desta mania, por parte de tantos brasileiros, de reverenciar ‘doutores’ que não são ‘doutores’? O uso deste estereótipo deve-se, eventualmente, ao baixíssimo nível da educação formal do nosso país, como divisor social? Ou porque gente simples sempre deseja que filhos ‘estudem para serem doutores’?

Ou, ainda, porque profissionais liberais são considerados bem-sucedidos, educacional e financeiramente? Mas, então, por que esta regra não vale para engenheiros e arquitetos, sempre chamados por ‘Eng.’, ‘Arq.’, nunca por ‘Dr.’ ?

Em partes, o uso do ‘pré-nome doutor’ é herança do coronelismo, onde a educação era reservada, apenas, à elite. Primeiro, houve os doutores em direito e medicina e, bem mais adiante, os Doutores Honoris Causa (por motivo honorífico), com ou sem formação acadêmica (muito menos, doutorado) para designar eruditos, sábios e profundos especialistas em determinadas áreas.

Contudo, segundo dicionários atuais, só se pode chamar de ‘Doutor’ aquele que tenha concluído um doutorado, em qualquer área que seja.

Dizem que o costume de chamar advogado e médico de ‘doutor’, mesmo aqueles sem doutorado, vem do Brasil colônia, pois na época, a maioria dos jovens ricos que estudavam fora cursava medicina ou direito.

Além disso, em 1827, Dom Pedro I decretou que, aquele que concluísse os cursos de ciências jurídicas e sociais no Brasil, deveria ser tratado como ‘doutor’, decreto este, que deveria ter caído em desuso, com o tempo, valendo, hoje, apenas, a regra do dicionário.

Infelizmente, contudo, hoje, advogados, médicos e ‘caroneiros’, como dentistas, fisioterapeutas e muitos outros profissionais, das áreas humana e biomédica, são chamados de ‘doutores’, por uma tradição ‘imposta’, reforçada por boa parte dos profissionais destas classes, ao usarem o termo em cartões de visita, placas de identificação, perfis nas redes sociais e, até, colunas de jornais e revistas, por exemplo. Um absurdo!!!

Dizem, ainda, que Dona Maria, a Pia, a ‘Louca’, esposa do rei D. Luís I e rainha consorte do Reino de Portugal, de 1862 até 1889, ‘baixou um alvará’, pelo qual, advogados portugueses teriam de ser tratados como ‘doutores’ nas Cortes Brasileiras.

Assim, por uma ‘lógica’ das mais obtusas, todos os bacharéis do Brasil, magicamente, passaram a ser ‘doutores’. Enfim, não é necessária muita inteligência para perceber os erros desse raciocínio.

Enfim, para alguém ser ‘Doutor’, efetivamente, no mundo atual, o caminho é longo e tortuoso: Bacharelado (conclusão de curso superior, com direito a praticar uma profissão, mas não lecionar na academia), Licenciatura (com capacitação provisória para a docência na academia), MBA (especialização em administração de empresas), Mestrado (curso de pós-graduação e defesa de dissertação, com duração entre dois e três anos, em média) e, então, Doutorado/Ph.D. (que capacita, com níveis de exigência altíssimos, em quatro a seis anos, o acadêmico a desenvolver estudos e pesquisas mais abrangentes sobre o campo científico de escolha).

Enfim, chega de mentirmos a nós mesmos: bacharel é bacharel e ponto final... nunca ‘Doutor’, ‘doutor’ ou ‘Dr.’.

Ademais, com o advento da República, caíram todos os modos de tratamento em desacordo com o princípio republicano de anulação de castas. Na República, vale o mérito e não os tratamentos de natureza nobiliárquica.

Que enterremos tudo isso com um só ‘mote’ (novamente!): “Doutor é, apenas, quem fez doutorado e isto vale para médicos, dentistas, advogados e todos os profissionais de roupa branca, bem como, os de terno e gravata, e outros profissionais ‘informalmente trajados’ (engenheiros, arquitetos, economistas, etc)".

A tradição até pode nos forçar (na ausência de um doutorado acadêmico) a chamá-los de ‘doutores’. Mas isso não torna ‘Doutor’ nenhum médico, dentista, veterinário e advogado, pois nenhum procedimento biomédico ou peça judicial pode ser chamada de Tese.

Em resumo, só é, realmente, ‘Doutor’ quem recebe tal título acadêmico, pós Defesa perante uma Banca abalizada, nunca pondo a abreviação ‘Dr./PhD’ antes do nome e, sim, após.

Desta forma, todos os profissionais, sejam quais forem, serão respeitados pelo que academicamente concluíram e fazem de bom (com o que aprenderam) e não por arrogarem para si um tratamento ao qual não fazem jus.

Ademais, para quem se acha ‘doutor’, neste país em que ‘smart’ adquiriu o significado depreciativo de ‘esperto’ (enganador), nem há a necessidade de fazer ‘Doutorado’, não ?

Números interessantes sobre doutorado no Brasil:

  • A cada 100.000 habitantes, apenas 8 têm Doutorado no Brasil (Reino Unido têm 41 e a Eslovênia, 57)
  • A idade média de quem consegue se tornar Doutor em nosso país é 37 anos
  • R$ 13.861,00 é a remuneração média dos Doutores no Brasil (6 vezes mais que a média da população)
  • Os Doutores em Direito são os que têm melhor remuneração (R$ 19.736,00 é o salário/ médio)