Testemunhamos atualmente um crescente número de pedidos de avaliação para diagnósticos do desenvolvimento infantil nas instituições de ensino e saúde. Escolas e pais, aflitos muitas vezes, preocupados em cuidar de suas crianças, procuram psicólogos, médicos, profissionais de saúde mental para avaliação e, potencialmente, algo que “resolva” o comportamento lido como fora do esperado.
Quadros marcados em crianças que apresentam grande prejuízo acadêmico, social e na vida em geral, existem e podem (devem), ser acompanhados por profissionais de saúde. Entretanto, me parece que temos um grande problema quando atribuímos a qualquer desvio do padrão normativo um rótulo que sugere muitas vezes uma terapia medicamentosa para crianças e adolescentes.
Assistimos à incorporação ao nosso próprio vocabulário rotineiro de siglas antes não tão conhecidas. Se um amigo me pergunta algo e estou pensando na lista de compras do mercado, me perco na conversa, automaticamente respondo: “desculpe, é o TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade)”.
Além disso, não levamos o ambiente, o contexto, em consideração quando enxergamos um aumento exponencial de transtornos do neurodesenvolvimento. Convido o leitor a se perguntar se tem a mesma capacidade de acompanhar um filme longo (sem checar o celular) de dez anos atrás. Esperar na fila e somente lidar com a espera parece algo de outro mundo. Repare nas filas. A maioria das pessoas está respondendo mensagens, pagando contas, trabalhando, acompanhando alguma postagem para entretenimento. O ambiente nos atravessa, interfere na maneira como lidamos com a vida, impacta adultos e claro, crianças e adolescentes.
Estamos, de fato, diante de um boom de casos de TDAH, ou estamos todos mais agitados e ansiosos? Essa pergunta precisa ser feita com cuidado antes de encaminhar uma criança para um tratamento medicamentoso. Outras formas de intervenção já foram consideradas? O sono está regulado? O uso de telas é moderado? A criança realiza atividades ao ar livre com frequência? Como está sua vida familiar? Esquecemos que o ambiente é fator de extrema importância para qualquer comportamento. Não somos descolados do mundo, ao contrário estamos em constante interação com tudo que nos cerca.
Assim, fica aqui o convite para uma reflexão mais profunda sobre o aumento de diagnósticos do nosso tempo. O sofrimento humano é datado, cada recorte temporal tem seus desafios. Vivemos tempos acelerados. Que nossas crianças sejam levadas em consideração a partir de um enquadre amplo para um melhor bem viver.
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