Casos como o do cão Orelha chocam, revoltam e entristecem. Mas, acima de tudo, precisam nos fazer refletir. Não apenas sobre um episódio isolado, e sim sobre uma realidade muito mais comum do que gostaríamos de admitir: os maus-tratos aos animais ainda acontecem todos os dias, muitas vezes de forma silenciosa, disfarçada de descuido, desinformação ou omissão.
É importante dizer com clareza: maus-tratos não se resumem a agressões físicas evidentes. Eles começam muito antes. Começam na dor ignorada, na doença não tratada, na fome “amenizada”, na água suja, no frio, no calor excessivo, no confinamento, no abandono emocional. Começam quando um animal sofre e ninguém faz nada.
Animais não sabem pedir ajuda. Eles não verbalizam dor, medo ou sofrimento. O que fazem é mudar o comportamento: ficam quietos demais, agressivos, apáticos, deixam de comer, se isolam. Esses sinais são pedidos de socorro. Quando ignorados, o sofrimento se prolonga — e isso também é crueldade.
Outro ponto fundamental é entender que a responsabilidade não é apenas de quem maltrata. É coletiva. Quando alguém presencia, suspeita ou tem conhecimento de uma situação de maus-tratos e se cala, contribui para que ela continue. Denunciar não é “se meter na vida dos outros”. Denunciar é proteger quem não pode se defender.
O médico-veterinário tem papel essencial nesse contexto. Somos treinados para identificar sinais de dor, negligência e sofrimento, mesmo quando eles não são óbvios. Muitas vezes, somos a primeira linha de defesa do animal. Mas a sociedade como um todo precisa estar atenta, informada e comprometida.
O caso do cão Orelha não pode ser apenas mais uma história que gera indignação momentânea e depois é esquecida. Ele precisa servir como alerta. Como convite à responsabilidade. Como lembrete de que amar os animais vai muito além do afeto: envolve cuidado, respeito e ação.
Maus-tratos são crime. Não normalize. Não ignore. Não silencie.
Quem ama, protege. Quem vê, denuncia.