Se 2025 marcou o auge do crédito caro, 2026 chega como o dia seguinte dessa conta. Juros ainda pressionados, atividade econômica andando com cautela e inadimplência empresarial em patamares históricos mudaram, de vez, a lógica da recuperação de crédito.
O empresário que insiste apenas na cobrança agressiva ou na judicialização automática, sem planejamento, continua ouvindo o clássico “agora não dá” — só que, agora, acompanhado de justificativas bem construídas e nenhuma culpa.
Na prática, recuperar crédito em 2026 deixou de ser um exercício de força e passou a ser um jogo de método, gestão de risco e leitura de tempo. O devedor está mais endividado, lida com vários credores simultaneamente e prioriza quem cobra melhor. Não é pessoal: é matemática.
A grande virada começa antes do atraso. Crédito mal estruturado virou sinônimo de problema certo. Empresas mais maduras passaram a tratar cobrança como parte da operação, não como plano B: limites definidos, prazos mais curtos, garantias pensadas com critério e contratos desenhados para execução — não para longas discussões.
Outro ponto central é que a cobrança virou produto. Sai o modelo engessado de e-mail padrão, notificação e ação judicial em série. Entra uma régua inteligente, com segmentação do inadimplente, integração de canais, propostas automatizadas e uso de tecnologia — inclusive inteligência artificial — para diferenciar quem pode pagar, quem precisa renegociar e quem apenas ganha tempo. Cobrar bem hoje é cobrar e construir prova simultaneamente.
Quando a via amigável não resolve, a execução precisa ser cirúrgica. Localizar patrimônio cedo, repetir diligências, combinar medidas e entender o comportamento do devedor deixou de ser diferencial e virou requisito.
Ganha destaque também a desjudicialização das garantias. Com o avanço do Marco Legal das Garantias, a recuperação extrajudicial de bens com alienação fiduciária se tornou mais rápida, previsível e efetiva.
Por fim, há uma verdade que o empresário precisará entender: quem demora demais entra na fila da cobrança judicial, e essa fila não tem pressa. Monitorar sinais de estresse financeiro, agir cedo e revisar contratos e políticas de crédito deixou de ser excesso de cautela jurídica e passou a ser estratégia de sobrevivência.
Em 2026, a diferença entre quem acumula processos e quem efetivamente recebe não está no número de ações ajuizadas, mas no que foi feito antes delas. Porque o dinheiro, quando decide aparecer, não espera o próximo despacho.
Dr. Augusto Martiniano Cardozo Neto
OAB/SC 36.993
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