Na reunião aberta desta quarta-feira (18) em que o secretário de Segurança Pública de Santa Catarina, Alceu de Oliveira Pinto Júnior, apresentou a redução dos índices de criminalidade no primeiro semestre do ano, não foi citado o aumento nas mortes em decorrência de ações policiais, cujo salto foi de 78,5%.

Mas o comandante da Polícia Militar, coronel Araújo Gomes, estava com o dado em mãos quando foi questionado pela reportagem do OCP News e não exitou em falar sobre o assunto. Entre 1º de janeiro e 17 de junho do ano passado, 28 pessoas morreram em confrontos com a polícia. No mesmo período deste ano, a SSP registrou 50 mortes. No ano passado inteiro, foram registradas 77 mortes no Estado.

"Isso mostra que há acirramento da nossa presença (policial) em locais conflagrados e armados. Quando soma (em números absolutos), cresceu. Mas a frequência (das ocorrências com morte) nos últimos meses vem diminuindo. ", argumentou Gomes.

A morte de um adolescente de 17 anos em uma ação da PM na manhã do último domingo (15), na Comunidade Chico Mendes, no bairro Monte Cristo, ganhou repercussão depois que familiares se manifestaram pelas redes sociais e moradores queimaram pneus nas ruas em sinal de protesto.

Na versão da polícia, houve confronto e o rapaz estava armado com uma pistola 9mm. A família, por sua vez, contesta, diz que ele não estava armado e que teria sido arrastado. O rapaz deixou mãe, irmão e dois filhos.

"Eu só queria que respeitassem meu luto e a minha luta, a gente só quer justiça. Nós crescemos sem pai, só tinha a nossa mãe. A gente já está sofrendo pela perda do nosso irmão, ele morreu brutalmente, a gente acreditava no futuro dele", disse o irmão em vídeo na internet, que seria uma resposta a comentários de outras pessoas.

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A morte do adolescente está sendo investigada em um Inquérito Policial Militar e pela Polícia Civil como deve ocorrer em todas as mortes. O coronel Gomes preferiu não comentar o caso em função das investigações que ainda estão em curso, mas falou sobre a comunidade que tem convivido com a presença frequente da polícia.

"É uma comunidade sob intervenção de segurança para melhoria da qualidade de vida. Estamos com oito homicídios a menos que no ano passado e reduziu de 48 para 12 as apreensões de armas, o que significa menos gente armada na rua. Mas ainda tem presença de organizações criminosas, tráfico e as ações continuam sendo conflituosas com a polícia", relatou Gomes.

Após a morte do garoto, houve uma reunião na comunidade que contou com a presença da União Florianopolitana de Entidades Comunitárias (Ufeco), advogadas que fazem parte de grupo de direitos humanos, o padre Vilson Groh e representantes da própria comunidade. Uma missa de sétimo dia será rezada no próximo sábado na Chico Mendes.

A advogada Daniela Felix que esteve na reunião e pretende dar auxílio jurídico à família, destacou que há abertura do novo comando da PM para o diálogo, mas sublinhou a condução das investigações de casos como esse e falta da presença social nessas áreas conflagradas.

"Não existe uma apuração concreta aos autos de resistência, se coloca tudo na conta do tráfico e está justificada a morte. Além disso, não se consegue ir adiante (na resolução do problema) porque o poder público não tem qualquer perspectiva de solução. Esses locais precisam de ocupação dos serviços públicos e não da polícia", defendeu Daniela.

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