Bouba e Moussa moram no Brasil há quase cinco anos (Fotos: Schirlei Alves)
Bouba e Moussa moram no Brasil há quase cinco anos (Fotos: Schirlei Alves)

As tardes de Boubacar Dieye, 41 anos, e dos colegas senegaleses oscilam entre a busca por clientes no comércio informal de rua e o medo de ter a mercadoria apreendida pela Guarda Municipal. É preciso agilidade se não quiser perder dinheiro.

Quando as viaturas se aproximam, os ambulantes, que não são apenas senegaleses, mas de outras nacionalidades, inclusive brasileiros, recolhem os produtos o mais rápido possível.

Na semana passada, um dos comerciantes senegaleses foi atingido por gás de pimenta em uma das abordagens da GM. A ação do agente municipal foi filmada por um popular na rua.

Guarda Municipal lança spray de pimenta em comerciante senegalês em Florianópolis

Para sustentar o casal de gêmeos que nasceu no Brasil e mais um filho que o espera em Senegal, Bouba se desdobra entre dois trabalhos. Na madrugada, atua como cobrador de ônibus. Descansa pela manhã e à tarde se dedica à venda de agasalhos nos calçadões do Centro de Florianópolis.

O que ganha tem que dar para sobreviver com a família (mulher e dois filhos), ajudar com os custos do filho que mora do outro lado do oceano e poupar para comprar as passagens de volta ao Senegal.

“Não há nenhum senegalês que não tenha vontade de voltar (para casa). Não faz sentido deixar a família para trás. Senegalês gosta de viajar, levar a sua cultura, mas sempre volta. Tem que buscar sustento para a família, não sofremos aqui por nós, mas por eles”, contou.

Discriminação como obstáculo

A esperança de uma oportunidade melhor de trabalho foi o que trouxe o senegalês ao Brasil, em 2013. As primeiras paradas foram no Acre e em São Paulo. Encantou-se com a liberdade com que os brasileiros se relacionam e levam a vida. Mas não imaginava que a discriminação seria o seu pior obstáculo.

Na região Sul, antes de chegar a Florianópolis, Bouba passou por Caxias do Sul e Chapecó - onde havia bilhetes pregados às portas de algumas empresas comunicando que não havia trabalho para estrangeiros.

Com pouca oferta de emprego, o modo que a maioria dos senegaleses encontra para sobreviver é vender. O comércio está no sangue do senegalês, conta o estrangeiro. Os produtos oferecidos no calçadão são os mesmos ofertados em lojas, garante o senegalês, cujas compras são realizadas em São Paulo.

A Prefeitura de Florianópolis não aceita o comércio, diz que os produtos vendidos na rua são contrabandeados ou pirateados. Sendo assim, o Município sustenta que não pode oferecer um espaço para a venda dos produtos dos imigrantes africanos.

“Não precisa chorar, não vai adiantar. Então, a gente tem que lutar para sair dessa. É difícil para cada um de nós, mesmo para o brasileiro. Estamos todos lutando para ter uma vida melhor”, desabafa Bouba.

Diálogo com poder público

A criação do Centro de Referência de Atendimento ao Imigrante (Crai), em fevereiro deste ano, surgiu como uma esperança para a comunidade de senegaleses. Com apoio do Estado, o grupo está formalizando uma associação.

A expectativa é de estabelecer uma porta de diálogo com o poder público não só para conquistar direitos, mas para contribuir com o Município. A Assistência Social do Estado, que está regulamentando a associação, promete articular reuniões entre as partes.

Bouba foi eleito presidente da associação e conta com o apoio do senegalês Moussa Faye, 46 anos, que é professor de inglês e francês e está no Brasil desde 2014. Diferente dos conterrâneos, Moussa veio buscar parceria com empresas cujo propósito era empreender na terra natal.

Embora não tenha conquistado sucesso nos negócios, Moussa se envolveu em iniciativas sociais no Acre, deu aulas de idiomas em uma escola no Paraná e fez serviços braçais. Bem que tentou validar o diploma para atuar oficialmente como professor, mas não foi possível diante da burocracia.

Igualdade racial

“Existem muitos estrangeiros formados trabalhando em frigoríficos, construções e com limpeza, isso é preconceito. No mundo atual de intercâmbio de civilizações e culturas não cabe mais isso. Na América do Norte e na Europa você encontra professores africanos em universidades”, avaliou Moussa.

Quando assistia aos mundiais de futebol pela televisão em seu país e via brancos e negros jogando no mesmo time, Moussa não fazia ideia de que havia distinção racial no país representado pela camisa amarela.

Ele só se deu conta disso após ter sido apresentado a um servidor da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção de Igualdade Social, ao desembarcar no Acre, no Norte do Brasil.

“Ele disse que estava lutando pela igualdade racial. Eu disse: ‘O que? Como assim? Não são todos iguais?’. Falta pesquisar a história dos negros. Quando todo mundo vai ser igual no Brasil?”, questionou o professor africano.

Assim como Bouba, Moussa pretende juntar dinheiro para retornar ao Senegal onde sua esposa e filhos o esperam. Mas o professor viajante não pretende parar por aí, pois ainda tem o sonho de empreender em suas terras.