Foto Eduardo Montecino/OCP News
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A disparidade salarial entre homens e mulheres segue sendo pauta constante de discussões sobre a igualdade de gênero e na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher não é diferente.

Ao longo dos anos, inúmeras conquistas de direitos só foram possíveis graças à militância e ao perfil combativo das mulheres, mas apesar disso, a igualdade ainda está distante quando o assunto é remuneração salarial assim como o é em outros tantos pontos, como a representatividade feminina em cargos de alto escalão seja no mundo corporativo ou na política.

 

 

De acordo com dados do estudo Estatísticas de Gênero, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) embora as mulheres trabalhem, em média, três horas a mais por semana do que os homens – somando o trabalho remunerado e os afazeres domésticos e familiares – a remuneração é, em média, 76,5% do rendimento dos homens.

O índice de nível educacional torna a situação ainda mais díspar, uma vez que as mulheres representam maior fatia quando o assunto é formação escolar. Segundo o estudo, entre 25 anos e 44 anos de idade, 21,5% das mulheres têm a graduação completa, para os homens a porcentagem cai para 15,6%

Os dados divulgados pelo IBGE até apontam uma diminuição na diferença entre os rendimentos de homens e mulheres, mas os 23,5% a menos na remuneração continuam não refletindo a igualdade tão almejada. Em 2012, o percentual era de 73,7% da remuneração masculina.

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A representatividade das mulheres em cargos de chefia contribui para a disparidade ainda presente. Segundo o estudo, apenas 39,1% dos cargos gerenciais eram ocupados por mulheres e a diferença ficava ainda maior de acordo com a faixa etária, podendo chegar a 31,8% no grupo de 60 anos ou mais.

Os dados mundiais também apontam para a pouca representatividade feminina em cargos de liderança, apesar de as mulheres já representarem mais de 49% do mercado de trabalho no mundo, de acordo com a OIT (Organização Mundial do Trabalho).

Segundo a pesquisa International Business Report – Women in Business, da Grant Thornton, em 2017, o índice brasileiro de mulheres em cargos de CEOs e de diretorias executivas era de apenas 16%. Em 2016, era ainda menor, de 11%, e, em 2015, de apenas 5%.

Apesar de números baixos, o país ainda supera a média mundial, que é de apenas 12%. Na ponta de cima do ranking está a Tailândia, onde 40% das mulheres ocupam cargos de CEO. Nova Zelândia (2%), Austrália (3%) e Irlanda (3%) são os países com menos representatividade feminina.

 

 

Já quando o assunto são cargos gerenciais e de liderança, o Brasil está atrás do índice médio global. Enquanto no país apenas 19% das empresas têm mulheres nestes cargos, no mundo a média é de 25%, com destaque para Rússia (47%), Indonésia (46%), Estônia, Filipinas e Polônia ( as três com 40%).

Outro índice no qual o país fica atrás da média global é o de companhias que não possuem sequer uma mulher em cargos de liderança, são 53% no Brasil, enquanto no mundo é de 34%.

O pior indicador é o do Japão, onde 67% das empresas não possuem mulheres em cargos de liderança.

Já o melhor índice é o russo com surpreendente 0%, ou seja, todas as companhias da Rússia possuem mulheres exercendo funções de liderança.

Cargos de diretoria

Há 16 anos o mundo dos negócios é a casa de Kelly de Moraes. A psicóloga acumula funções e é uma das poucas mulheres, como mostram os estudos do IBGE, da Organização Mundial do Trabalho e da Grant Thornton, que chegaram a um cargo de liderança.

Hoje, ela é presidente do Núcleo de Mulheres Empreendedoras da Acijs (Associação Empresarial de Jaraguá do Sul) e também vice-presidente do Conselho Estadual da Mulher Empresária, regional Norte, do Sistema Facisc (Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina).

Apesar de “ter chegado lá”, Kelly reforça a percepção que os estudos nacionais e internacionais demonstram.

Na Facisc o panorama não é diferente, conta ela, que afirma que 82% dos cargos de diretoria são ocupados por homens. No Conselho Superior, são 723 homens, na presidência, 117 e na diretoria, 908.

Os cargos gerais da diretoria têm 2.861 homens, ressalta Kelly, que destaca ainda que entre as diversas presidências da Federação, apenas 14 são mulheres.

“É importante que a gente fale, afinal, é uma média geral lá de 14 mulheres para 103 homens e, se formos para o protagonismo da mulher em geral, temos uma redução maior ainda”, analisa.

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Embora ressalte que a atual diretoria da Federação é “bastante aberta e próxima das mulheres”, a empresária destaca o quão machista segue sendo o mundo corporativo ilustrado pela própria sede da Facisc.

“Recentemente fomos para uma sede nova, muito bonita e em uma parede temos uma carreira de homens, presidentes. É uma parede extremamente machista, mas porque em 20 anos de Conselho da Mulher Empresária, tivemos em 2010 uma mulher a atingir um cargo de presidência”, conta.

A psicóloga e empresária diz que ainda existe um resquício na sociedade de direcionar responsabilidades apenas aos homens, especialmente quando se tratam de negócios, decisões, protagonismo e liderança.

Apesar disso, destaca que nos últimos anos o poder feminino direcionado a esses segmentos tem feito um movimento capaz de elevá-las a esses cargos e, mais do que isso, destacar-se neles.

Kelly defende que é fundamental trabalhar o protagonismo feminino em todos os núcleos possíveis e incentivar o empreendedorismo de mulheres desde a base do interior até as grandes cidades e salienta que esse é o papel do Conselho da Mulher Empreendedora.

Disparidade salarial

Apesar de afirmar nunca ter sofrido preconceito explícito por ser uma mulher em cargo de liderança, Kelly avalia que a disparidade salarial é, por si só, uma maneira de submeter as mulheres.

“Eu sempre trabalhei com muitos homens em cargos de diretoria e quando nós acendemos aos cargos de liderança fica tudo certo, mas quando estamos equiparados, pelos índices mundiais, ainda estamos abaixo da média salarial”, enfatiza.

“E quando falamos em equiparação não tem nada a ver com brigar com os homens. A gente não briga, não disputa posição, só quer fazer parte”, complementa.

Na visão da empresária o movimento de mulheres no mundo corporativo e em cargos elevados tem se acentuado nos últimos anos por uma mudança comportamental na qual elas estão priorizando a formação e a carreira, o que chama de uma “mudança de modelo”.

“Desde o pós-guerra a mulher iniciou uma mudança e agora, décadas depois, em 2019, o mesmo movimento ainda acontece, de mulheres indo para a indústria. A carreira começou a ser destaque na vida da mulher, coisa que não era bem vista há 20 anos, por exemplo”, analisa.

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Embora ressalte que os dados continuam sendo assustadores levando em consideração a baixa abertura para mulheres em posições de liderança, Kelly é otimista e, além de projetar uma mudança significativa para os próximos dez anos, afirma que existem duas maneiras distintas de olhar os números.

“Podemos olhar e nos lamentar porque só ocupamos 19% dos cargos ou podemos olhar e pensar: caramba, tenho 81% de chance de ocupar esses cargos”, destaca. Para ela, em uma década o país deve atingir a equidade na ocupação desses cargos.

A empresária ressalta ainda que a promoção da autoestima, do empoderamento feminino e da sororidade entre as mulheres são fatores fundamentais para que elas possam lutar pelos cargos de liderança.

 

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