Foto Eduardo Montecino/OCP News
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A oficialização do 8 de março como o Dia Internacional da Mulher se deu em 1975 pela ONU (Organização das Nações Unidas), mas se engana quem pensa que a comemoração iniciou apenas há 49 anos.

O movimento ganhou corpo ainda no início do século 20 e surgiu da força trabalhista da época sendo lembrada hoje com foco na igualdade de gênero e motivando inúmeros protestos ao redor do mundo.

 

 

A relação imediata que se faz do 8 de março é com o incêndio ocorrido na Companhia de Blusas Triangle, no dia 25 de março de 1911, quando dos 146 trabalhadores que morreram, 125 eram mulheres.

Apesar disso, a reivindicação das mulheres para terem voz dentro dos movimentos trabalhistas começou antes, especialmente com representantes nas fábricas dos Estados Unidos e em alguns países da Europa.

Em 1909, Nova York presenciou uma grande passeata de mulheres marchando por melhores condições de trabalho.

Foram quase 15 mil caminhando e gritando palavras de ordem contra as condições degradantes de trabalho – para elas, a jornada chegava a até 16 horas diárias, por seis dias durante a semana.

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Na Europa, Clara Zetkin falou abertamente na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em agosto de 1910, sobre uma jornada de manifestações que se dedicasse às mulheres trabalhadoras e à igualdade de direitos.

Sete anos depois, um grupo de operárias saiu às ruas manifestando-se contrárias à fome que assolava a Europa e à Primeira Guerra Mundial. O movimento é tido como marco inicial da Revolução Russa e aconteceu em 23 de fevereiro, o 8 de março do calendário gregoriano adotado pela maioria dos países.

Apesar do reconhecimento das lutas e das conquistas históricas e da comemoração da data ao redor do mundo – em alguns países o dia 8 de março é considerado feriado nacional – a luta inicial pela igualdade de direitos não cessou.

As mulheres continuam com a bandeira levantada e embora o debate acerca dos problemas seja mais claro e efetivo, não houve solução para muitos deles. No Brasil, as mulheres conquistaram o voto apenas em 1932 e, apesar disso, a representatividade feminina na política ainda é muito limitada.

Além disso, questões como violência contra a mulher, feminicídio e disparidade salarial ainda não foram solucionadas.

Por isso, o OCP traz durante toda esta semana uma série de reportagens que irá abordar alguns dos temas que, embora antigos, ainda não foram resolvidos e continuam motivando luta das mulheres no Brasil e no mundo. O primeiro foco será o combate à violência.

Machismo estrutural

Os números de violência contra a mulher são assustadores e se multiplicam ano após ano. De acordo com os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública por meio do relatório “Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, 16 milhões de mulheres brasileiras sofreram algum tipo de agressão no último ano, o que representa 1.830 por hora.

A agressão física (empurrão, chute ou batida) atingiu mais de 4,6 milhões de mulheres no país, o que significa mais de 536 mulheres agredidas por hora no Brasil.

Os agressores seguem sendo conhecidos. Em 23,8% dos casos, o companheiro (seja cônjuge ou namorado) foi o agressor. Vizinhos e ex-companheiros representam, respectivamente, 21,1% e 15,2% dos agressores. E a casa da vítima ainda é o local onde a violência mais ocorre, em 42% dos casos.

Os números de homicídios e feminicídios aumentaram de 2016 para 2017, conforme aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2018.

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O assédio também assusta. Nos últimos 12 meses, mais de 22 milhões de mulheres relatam ter sofrido algum tipo de assédio, dessas, 19 milhões afirmam ter ouvido comentários desrespeitosos enquanto andavam na rua. O segundo local que elas mais sofrem com assédio é no trabalho.

Para a delegada Claudia Cristiane Gonçalves, da DPCAMI (Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso) de Jaraguá do Sul, o machismo estrutural da sociedade brasileira é o motor da violência contra a mulher.

Claudia ressalta que o Dia Internacional da Mulher é, de fato, uma data a ser comemorada por conta das inúmeras conquistas pelas quais as mulheres lutaram ao longo dos anos, mas destaca que “ainda estamos atrás”.

“Continuamos atrás. Atrás dos homens porque ainda estamos inseridos em uma sociedade machista e nesse contexto de sociedade machista é que decorre a violência doméstica. Os homens ainda acreditam que as mulheres devem se submeter às vontades deles, que eles são os senhores dentro da casa e que as obrigações são femininas. Quando a mulher está numa condição de suscetibilidade, seja emocional ou financeira, acontecem esses casos de violência”, avalia.

A delegada afirma que embora Jaraguá do Sul seja um exemplo em índices de segurança, os números de violência doméstica não diminuem e, para isso, salienta, é necessário mudar a cultura da sociedade.

Para Claudia, estar inserido no que ela chama de “sociedade doente” faz com que os homens ajam de maneira violenta, agressiva e superior.

“Não justifica, de forma alguma, mas você consegue compreender esse contexto observando que eles estão dentro dessa sociedade machista que os considera superiores e que vê as mulheres com um papel de submissão”, analisa.

Após três anos trabalhando em Santa Catarina, a percepção que a delegada, natural de Pernambuco, tem é de que a violência psicológica é tão ou mais frequente do que a física e, na mesma proporção, mascarada.

“Muitas mulheres sequer sabem que estão sendo vítimas de violência. Ela vai para a delegacia, às vezes, quando é agredida fisicamente, mas a violência psicológica é muito grave e talvez mais devastadora porque decorrem anos dessa violência, que sempre evolui para a violência física”, diz.

A violência contra a mulher, destaca a especialista, independe de idade e classe social. Segundo os dados do FBSP as maiores vítimas ainda são as mais jovens, mas o número de mulheres agredidas com 60 anos ou mais representa 13,6%, o que confirma que não há limite para a violência.

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No que diz respeito às condições financeiras, a delegada ressalta que aquelas economicamente bem sucedidas geralmente não se expõem, o que mascara o número de agressões.

“Esse tipo de crime não tem classe. As pessoas com poder aquisitivo econômico inferior chegam mais, elas são mais destemidas para chegar e se expor, mas quem tem dinheiro também passa por situações semelhantes de dependência emocional, de violência física, de violência psicológica, relacionamentos abusivos, de tudo. Nada muda”, afirma.

Na visão da delegada, a legislação brasileira é suficientemente boa para a proteção às mulheres, mas, em contrapartida, a sua aplicabilidade não e, segundo ela, muito por conta da escassez de recursos.

“A lei é muito boa, é bonita, a implementação é que é difícil. É difícil porque as vias às vezes são dificultosas, os recursos são escassos”, avalia.

Educação e mudança cultural são, para a delegada, o caminho para que a violência contra a mulher deixe de ser uma demanda urgente e um assunto recorrente ano após ano.

Para ela, o machismo estrutural da sociedade precisa ser, gradativamente, minado e, para isso, ressalta ela, é fundamental que se invista em educação. Em contrapartida, a valorização e a elevação da autoestima feminina são, na sua visão, demandas das mulheres.

 

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