Racismo e machismo aliados resultam em elevados números de violência contra mulheres negras, analisa Julia Mariane Américo | Foto Eduardo Montecino/OCP News
Racismo e machismo aliados resultam em elevados números de violência contra mulheres negras, analisa Julia Mariane Américo | Foto Eduardo Montecino/OCP News

A música "A vida é desafio" foi composta ainda na década de 1990, mas a realidade retratada nos versos cantados por Edi Rock não mudou nas mais de duas décadas desde que a letra foi escrita. Para as mulheres negras, ela é uma constante.

“Desde cedo a mãe da gente fala assim: filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor. Aí passado alguns anos eu pensei: como fazer duas vezes melhor se você está pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses, por tudo que aconteceu? Duas vezes melhor, como?"

Esta canção vai ao encontro da indagação da professora aposentada Julia Mariane Américo, ativista do Moconevi (Movimento de Consciência Negra do Vale do Itapocu), que ressalta o quanto a mulher negra ainda sofre preconceito e é a maior vítima de violência e discriminação no mercado de trabalho.

“Você está competindo com uma mulher branca, você tem que ser melhor, mas como ser esse melhor se nós não estamos no mesmo patamar?”, questiona.

Os dados comprovam o quanto a mulher negra é subvalorizada e alvo de violência no Brasil. Os números trazidos pelo Atlas da Violência 2018, organizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2016, a taxa de homicídios de mulheres negras foi 71% superior à de mulheres não negras.

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Em Santa Catarina, a taxa de homicídios de mulheres negras por 100 mil habitantes se elevou de 4,0 para 5,1 entre 2015 e 2016, uma variação de 27,7%.

O Mapa da Violência de 2015 apontou um crescimento assustador dos homicídios de mulheres negras entre os anos de 2003 e 2013, passando de 1.864 para 2.875, ou seja, um salto de 54% em dez anos.

Em contrapartida, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8% no mesmo período. A chance de uma mulher negra ser assassinada é duas vezes maior. O percentual de mulheres negras vítimas de violência doméstica era, em 2015, de 58,86% segundo dados da Central de Atendimento à Mulher.

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E os números de violência atingem todos os níveis com mais impacto nas mulheres negras. Mais de 53% das vítimas de mortalidade materna eram negras. Os dados da Fiocruz de 2014 mostravam que 65,9% das vítimas de violência obstétrica eram negras.

O Ministério da Justiça divulgou, em 2015, que 68,8% das mulheres mortas por agressão eram negras. No mesmo ano, no Rio de Janeiro, mais de 56% das vítimas de estupro no estado eram negras. Os anos passam e os índices continuam apontando as mulheres negras como as maiores vítimas da violência.

Quando o assunto aponta para a remuneração salarial, também são elas as mais desvalorizadas. A mulher, de modo geral, recebe apenas 76,5% da remuneração masculina, em média e, de acordo com a pesquisa

 

 

“Retrato das desigualdades de gênero e raça – 20 anos” do Ipea, o salário médio das mulheres negras entre 1995 e 2015 era 40,9% da remuneração de homens brancos. Mulheres negras em cargos de gerência? 1,6%.

Em quadros executivos, apenas 0,4% apontou a pequisa Perfil social e de gêneros das 500 maiores empresas do Brasil e suas ações afirmativas, do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), em parceria com o Instituto Ethos.

Todo esse quadro acontece em um país no qual quase 54% da população é negra e onde 15,9 milhões de famílias são chefiadas por mulheres negras.

“Tudo passa pela autoestima”

Os lenços são delicadamente ajustados na cabeça e mostram o orgulho da história, tradição e cultura negra. Jaraguaense, a professora aposentada Julia Mariane Américo desenvolveu um projeto que tem como objetivo o reconhecimento das meninas negras.

Em uma caixa, mais de 30 bonecas são levadas às escolas e colocadas em exposição antes de servirem às brincadeiras, mas não são quaisquer bonecas, são negras.

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Para ela, esse contato das meninas negras com bonecas que as representem é fundamental para a formação da personalidade e fortificação da autoestima, tão minada em uma sociedade racista, destaca.

“Todos os dias as mulheres ouvem algo como: cabelo ruim, cabelo de bombril. Eu ouvia isso na infância. Nós sofríamos e, por isso, procurávamos formas de alisar, baixar, esconder. Hoje, eu fico muito feliz quando vejo crianças orgulhosas de seus cabelos volumosos, indo para a escola de cabelo solto”, conta.

A professora e ativista destaca que o foco do projeto é mexer com a autoestima das crianças ao mesmo tempo em que mostra a cultura negra através dos cabelos das bonecas, dos turbantes, das roupas.

“Tudo passa pela autoestima e isso começa na infância. Eu percebia isso com colegas, comigo. Éramos diminuídas com relação à cor, depois ao cabelo, depois ao nível social”, relata.

 

Por isso, afirma ela, é importante que as crianças se vejam em bonecas, sintam-se representadas. “Elas conseguem se ver em uma boneca bonita e negra”, complementa.

O número de violência contra a mulher negra é um assunto sério e que precisa ser debatido, ressalta Julia.

“Isso é uma coisa muito difícil de aceitar e entender, porque a maior população é negra, mas parecemos minoria nos lugares e voltamos a ser a maioria na questão da violência. Não consigo fazer essa matemática. Por que a maioria não está em evidência? E está na evidência em uma questão tão forte como é a violência? A dor é muito grande”, destaca.

Para ela, a resposta para essa questão é a mesma de séculos: o racismo. A professora salienta que o racismo, aliado ao machismo - ambos estruturais na sociedade brasileira -, eclode em índices que vitimam, dia após dia, a mulher negra, em injúrias, assédios, estupros, violência obstétrica, violência física e assassinatos.

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“O que mais deixa a gente indignada é que continuam aparecendo casos, casos novos, coisas que a gente achou que tinha sido superada já, parece que as campanhas não surtem o efeito que a gente imaginava”, analisa.

Apesar disso, a ativista afirma que a luta dos movimentos de mulheres negras tem sido importante para resgatar a autoestima e evidenciar o protagonismo na sociedade. Ela ressalta que as mulheres são muito fortes quando têm esse poder de fala e de serem ouvidas.

 

 

A representatividade de pensadoras e artistas negras é fundamental para que as mulheres negras se vejam representadas em espaços ainda muito limitados a elas.

Conforme a professora, nomes como Taís Araújo, Iza e Maju Coutinho são fontes de inspiração e servem como alicerces para que as meninas negras possam se sentir representadas e ter um espelho para lutar pelo seu espaço e para se sentirem impulsionadas a levantar a voz a questões raciais.

 

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