Foto Eduardo Montecino/OCP News
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Um dia de comemoração, conscientização e memória. O 8 de março é lembrado no mundo todo e embora já fosse considerado o “dia da mulher” há muito mais tempo, passou a ser oficialmente conhecido assim após sua oficialização pela ONU (Organização das Nações Unidas), em 1975.

Atualmente, as mulheres seguem lutando diariamente pela igualdade de direitos, raiz do movimento feminista e dos protestos em todo o mundo.

A liberdade de ser mulher sem se deixar encaixar em estereótipos formados ao longo dos anos é tema recorrente de debates.

Para falar sobre isso, o OCP traz, na última reportagem da série, mulheres que entendem o Dia Internacional da Mulher como um momento de comemorar os direitos adquiridos ao mesmo tempo em que serve como ponto de reconhecimento do ser mulher e de tudo que ainda é preciso avançar.

O resgate do Sagrado Feminino

A reconexão consigo através do contato com a natureza e da consciência de sua ancestralidade e dos seus ciclos fomentando assim o conhecimento de sua capacidade de criação, acolhimento e força. Isso é o Sagrado Feminino, um retorno ao estilo de vida que promove o autoconhecimento da mulher.

Para a terapeuta natural com foco na ginecologia natural, Isabella Borgheti, o resgate do Sagrado Feminino vem ocorrendo entre as mulheres – especialmente as mais jovens – porque o movimento da social as empurrou para uma posição de competitividade e produtividade excessiva dentro de uma sociedade patriarcal.

“Pra gente conseguir ter o nosso lugar de volta parece que a gente entrou nesse mesmo ritmo, que chamamos de masculino, que é um ritmo de superprodutividade, de ação, e ao invés de entrarmos nisso achando um equilíbrio com a sensibilidade, nos esquecemos dela. Então, o Sagrado Feminino vem como esse resgate do cuidar de si, resgatando o contato com a natureza entendendo que o nosso corpo é a personificação dela, possui os mesmos ciclos que ela”, explica.

Para a terapeuta, a atenção ao Sagrado Feminino é o retorno à ancestralidade, quando as mulheres eram vistas como sagradas e havia um equilíbrio. Isabella ressalta a importância de valorizar o feminino, que é o cuidado com o outro, a atenção, a calma, a intuição, o olhar amoroso com o outro e, consequentemente, pra si mesmo.

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“É isso que a gente tenta trazer de volta com o Sagrado Feminino, essa parte do cuidar mesmo e aí a gente tenta desenvolver isso com a mulher cuidando de si”, complementa.

O Dia Internacional da Mulher é, para a terapeuta, uma data especial para pensar em todas as lutas e conquistas, mas, apesar disso, ela não vê o dia como de comemoração e sim de conscientização.

“Eu não consigo ver como um dia de comemoração, eu acho que é mais um dia de conscientização, de ver que a gente já percorreu um longo caminho, que a gente já conquistou muita coisa, mas que a gente ainda tem muita coisa para ser conquistada. Então, é para lembrar o que as nossas ancestrais já fizeram pela gente, o chão que elas já trilharam por nós e o que a gente ainda tem para trilhar para poder ajudar as gerações futuras”, avalia.

“Ser mulher é ser um sujeito político”

Jovem e engajada. Apesar de ter apenas 20 anos, Ana Abel já percorreu um caminho de conhecimento e luta pelos direitos femininos.

Ex-presidente da UBM (União Brasileira de Mulheres) de Jaraguá do Sul, ela afirma que embora se reconheça todas as conquistas das mulheres especialmente após a década de 1960, hoje os maiores desafios são políticos, de representatividade e culturais.

Ana acredita que as recentes discussões eleitorais trouxeram luz às questões culturalmente machistas.

“Foi importante para a politização das pessoas. Eu nunca vi tanta gente falando sobre isso, mesmo que ainda seja uma questão meio nublada, meio alienada, mas as pessoas estão falando e elas conseguem reconhecer falas machistas”, diz.

Ana enfatiza que para avançar nas conquistas é fundamental que a mulher se enxergue como sujeito político e que consiga compreender que o machismo existe, é estrutural e atinge a todas, indiscriminadamente.

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“Eu acho que o caminho é as mulheres se entenderem mais como sujeitos políticos, entender que mesmo que você ache que não sofreu machismo, você sofreu”, avalia.

A ex-presidente da UBM acredita que a demanda mais urgente das mulheres segue sendo o combate ao alto índice de violência e vê como fundamental a introdução da discussão de gênero em todos os espaços sociais para que, gradualmente, a cultura de machismo e submissão possa ser enfraquecida.

“Esse trabalho de base tem que acontecer para tornar as pessoas mais políticas não só no sentido de voto, mas entendendo que elas fazem parte de um sistema. É um caminho gradual. Eu acredito que estamos em um momento de denúncia e o próximo é o da mudança”, salienta.

Ser mulher, para Ana, é uma construção política e entender que a submissão a estereótipos é uma consequência dessa consciência.

“Ser mulher hoje é entender que somos sujeitos políticos, é uma construção política. Precisamos debater essa questão de submissão e entender porque nos sentimos e agimos de algumas maneiras. Somos livres, mas ainda falta essa coisa da mudança cultural para que sejamos realmente livres sem sermos julgadas. O julgamento é uma coisa que nos limita muito”, destaca.

“Sem a mulher o mundo não existiria”

A sociedade era muito diferente em 1957. Quando Anigret Schuster nasceu, as mulheres brasileiras votavam há apenas duas décadas e muitas das chamadas revoluções feministas sequer haviam sido conquistadas.

Hoje, aos 65 anos, ela não consegue ver a mudança que gostaria de ter presenciado em mais de seis décadas de vida e enxerga a mulher como ponto de sustentação da sociedade. “Eu sempre digo que a mulher é pau para toda obra. Sem ela o mundo sequer existiria”, ressalta.

Apesar disso, lamenta que os anos passem sem que as mulheres consigam conquistar o maior de seus objetivos: a igualdade. Embora reconheça os avanços, Anigret não é otimista e não acredita que “estará viva para ver as duas partes iguais”.

“Eu queria que acontecesse, mas é difícil mudar as coisas de hoje para amanhã. Eu tenho 65 anos e ainda não consegui ver. Então, a gente vai vivendo para ver o que conseguir. Gostaria, mas não acho que vou conseguir ver as duas partes iguais, tanto homem, quanto mulher”, salienta.

Ela completa ainda que “as autoridades precisam dar mais atenção às mulheres”.

Para Anigret, que trabalhou “na roça” durante toda a vida, direitos básicos ainda são negados às mulheres, como a aposentadoria que ela mesma ainda não conseguiu atingir.

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“Até agora não consegui me aposentar. Trabalhei a vida inteira, tudo ficava para mim, roça, casa, família. A gente nunca teve uma vida fácil e ainda não tem”, diz.

Casada e com três filhos, a mudança que conseguiu presenciar e que mais a emociona é algo que hoje parece banal, simples e natural, mas que foi motivo de luta para as ancestrais: a entrada no mercado de trabalho.

“Alguns pontos mudaram e isso foi um progresso muito importante. Antigamente a mulher não poderia nem pensar em trabalhar fora e hoje estamos no mercado de trabalho. Foi importante demais”, ressalta.

Mas, apesar disso, Anigret também lamenta atitudes e pensamentos que perduram década após década, como a violência contra a mulher. Aos 65 anos, mãe e avó, ela enfatiza que os números alarmantes são fruto de uma sociedade que vê a mulher como propriedade.

O Dia Internacional da Mulher é, para Anigret, um reconhecimento do que já passou, mas também serve para alertar tudo que ainda precisa de atenção e consciência de que “não podemos parar”.

 

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