“Em um relacionamento complicado”. É assim que muitas mulheres, se não a maioria, descreveria sua relação com a menstruação.

Harmonizar esse convívio e despertar à natureza do ciclo feminino é o que motiva o movimento “Plante Sua Lua”, que faz uma ação mundial neste domingo (5) e chega a Jaraguá do Sul pelas mãos de mulheres que vão compartilhar a prática no Parque Malwee.

Mas o que é plantar a lua? O movimento consiste em devolver o sangue menstrual à terra ao invés de descartar no lixo. Isso é possível usando absorventes de pano ou coletores menstruais.

Os motivos são muitos: conscientizar de que a menstruação tem um valor biológico como fertilizante, incentivar intimidade entre mulher e esse processo vital do corpo, reconhecer a menstruação como parte fundamental para a vida humana, liberar conceitos sociais e trazer mais amorosidade para a relação.

Outro olhar para os ciclos

Apesar de surgir como um movimento novo na vida de muitas mulheres, a jaraguaense Marthina Hanemann, terapeuta que movimenta o encontro na cidade, pontua que essa prática é ancestral.

Como a menstruação está ligada aos ciclos lunares – dura comumente 28 dias como o tempo de passagem das quatro fases da Lua –, antigamente muitas mulheres menstruavam sempre na Lua Nova.

Com isso, era prática nas comunidades que elas entrassem nas “tendas da lua vermelha”, para honrar o óvulo não fecundado e se conectar com uma consciência maior nesse momento forte da natureza, trazendo soluções para o grupo.

O sangue menstrual revela sinônimos físicos, emocionais e espirituais da mulher. Foto Maiara Sestari Bersch

Atualmente, muitos tabus cercam a menstruação. Marthina ressalta que a prática é uma forma de liberar traumas às vezes acumulados por anos e anos – muitas vezes relacionados já com a menarca, a primeira menstruação da mulher.

“Nessa transição da menina para a mulher, ela começa a ter que assumir mais responsabilidade, pode gerar um filho, são muitos movimentos hormonais e novas sensações sendo despertas naquela menina” pontua.

Para Marthina, plantar a lua é uma forma da mulher se reconectar com o seu ciclo. “E olhar para a sua menstruação é olhar para ela. Olhar para a sua natureza cíclica, percebendo suas transições de uma fase para a outra: a fase da menstruação, a fase da pré-ovulação, a ovulação, a fase da pré-menstruação”, pontua.

“E porque liberar tudo isso a terra? Porque a terra tem esse poder de acolher, de restaurar, de dar vida a uma semente, para que ela transforme em algo novo”.

Percebendo a própria natureza

A maioria das mulheres esbarra em “problemas” com a menstruação: dores, fluxo intenso, cólicas, cistos. Marthina pontua que, pela conexão com o plantar a lua, se busca perceber a relação de cada aspecto da vida da mulher com a menstruação.

“Uma emoção mal resolvida que não foi dissolvida, uma alimentação que foi agressiva para o seu sistema, uma memória que ainda persegue, que ainda acompanha, tudo pode ser visto no seu sangue. A cor, os coágulos nele presentes, as cólicas”, comenta.

"Abrir a mente para se relacionar com esses sinais é uma forma de dar atenção ao que o é necessário transformar", ressalta Marthina.

A principal consequência é a abertura de espaços para práticas mais alinhadas com uma vida equilibrada.

“Quando começa a se conectar com o plantar a lua, a mulher geralmente se volta a práticas mais saudáveis para ela: como não usar o anticoncepcional, não usar absorventes comuns, não usar o O.B., principalmente, buscar alternativas e buscar as medicinas fitoterápicas”, ressalta.

Ela pontua ainda que muitos químicos presentes nos absorventes e produtos de higiene encontrados nos supermercados trazem desequilíbrios hormonais e que os anticoncepcionais contam com uma extensa lista de efeitos colaterais.

Marthina conta que o despertar para sua natureza cíclica aconteceu em 2014. Ao parar de tomar o anticoncepcional por se sentir “amortecida”, novas alternativas de vida começaram a surgir. As enfermidades no ovário com as quais convivia foram um alerta.

Marthina sentiu em 2014 necessidade de buscar novos caminhos para expressão. Foto Maiara Sestari Bersch

“Eu estava reprimindo muito a minha expressão da criatividade, a minha sexualidade e muito a minha natureza feminina baseada em tempos impostos por uma sociedade, mas o que realmente eu precisava expressar, eu não estava expressando”, conta.

Resgatar os caminhos em cada fase do ciclo foi necessário e assim passou a olhar com mais amor para o sangue menstrual. Mês a mês, ele era entregue a terra com a intenção da transformação e abrindo novos espaços de confiança dentro de si.

“Existe sim muitas mulheres abrindo espaço de cura e transformação, mulheres com miomas, com ovários policísticos relatando a cura pelo plante sua lua, porque elas começam a curar não só a nível físico, mas também mental, emocional e espiritual”, finaliza.

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Como coletar e manter?

Para quem usa o coletor, basta despejar o sangue em um vidrinho ao invés de dar a descarga nele ou jogar pelo ralo. No caso do absorvente de pano, deixe ele de molho na água e guarde o líquido que resultar.

Para adotar a prática mensalmente, basta despejar o sangue menstrual diluído em água na terra ou em um vaso de plantas logo após coletar. Se quiser guardar para domingo, use algumas gotinhas de óleo essencial como conservante.

Quem pode participar?

O processo é feminino, mas o evento é aberto a qualquer pessoa interessada em integrar o movimento: homens e mulheres, não importa a idade. Quem não tiver sua “lua” para plantar, pode simplesmente participar do evento com coração aberto.

Se o ciclo tiver passado ou se estiver na menopausa, não tem problema. A ideia do movimento é abrir um espaço para olhar para a menstruação de uma nova a forma, então basta essa motivação para participar. O grupo vai se encontra domingo, às 10h30, no estacionamento do Parque Malwee.

Serviço

  • O que: Plante Sua Lua
  • Quando: Domingo, 5 de agosto, às 10h30
  • Onde: Parque Malwee - encontro no estacionamento, logo na entrada
  • Quanto: participação gratuita

 

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