De quantas coisas você precisa para ter uma vida tranquila e confortável? Tente fazer uma lista das coisas essenciais que te fariam plenamente feliz. Certamente esse 'kit essencial' inclui roupas, celular, dinheiro no bolso, móveis, um carro e uma casa para guardar tudo isso. Mas será que ter isso tudo é o que basta para ter uma vida mais saudável, feliz e sem preocupações?

Bom, quem pratica o simples não pensa assim, e acredita que o desapego é o melhor caminho a ser seguido. Mas nada disso quer dizer que você tem que jogar tudo para o ar, neste exato momento, e ir morar em uma cabaninha no meio do mato - claro que isso seria incrível e, se você fizer, entre em contato conosco que vamos amar contar essa história ;).

Nesta segunda edição da série Vida Simples, quem nos ensinou mais sobre viver com "menos" foi a jaraguaense Marthina Hanemann, de 26 anos, a Thina. Ela vive uma filosofia um pouco diferente do que estamos acostumados no dia a dia, uma forma de pensar e agir que busca o encontro ao próprio ser através do autoconhecimento.

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Leia a primeira edição da série:
Vida simples: os jaraguaenses que deixaram o consumo de lado para viver com pouco
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Há aproximadamente dois anos, ela resolveu viver a vida no seu sentido mais simplório, com o objetivo de quebrar os descontentamentos. Abriu mão da rotina e dos comportamentos 'padrão' de uma estilista, e desenvolveu-se na busca de um modelo de trabalho mais harmônico com própria vida. Thina hoje é consultora de moda consciente, professora de yoga, tem sua própria horta em casa, e vive em comunidade.

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Foto: Rafael Verch
Para entender como a Thina vive, ela nos explicou o próprio conceito de estar no simples. Para ela, viver o simples é parar de viver com separações ou superioridade de seres e dar o devido valor às coisas, entender a própria essência, estar conectado com a alma e dali permanecer em harmonia com tudo. Estando ancorado com o próprio ser é estar em harmonia com tudo.
Segundo ela, esta é uma mudança que vai acontecendo de dentro para fora e, com o tempo, tudo rola naturalmente. No fim, nada disso se torna um "sacrifício" ou um processo árduo.
Assista ao vídeo pra entender um pouquinho mais sobre a Thina e a relação com a vida simples:

Início da caminhada para o simples

Formada em moda em 2013, Thina sempre esteve inserida em um cenário voltado ao consumo, mas ainda na época da faculdade, ela se questionava sobre a maneira que vivia. Na procura de alternativas para continuar atuando no mercado, ela passou por diversos processos e tentativas para conseguir se encontrar e buscar aquilo que a faria feliz e realizada.
Um belo dia ela sabia exatamente o que tinha que fazer: ir morar na Chapada dos Veadeiros, alto paraíso de Goiás, isso dois anos atrás. “E quando cheguei lá tudo se mostrou, afinal eu não precisava de nada externo, porque o movimento vinha de dentro para fora”, comenta.
Thina ficou dois anos peregrinando por todo o país, e morou até em Piracanga, naquela ecovila linda na Bahia, que já falamos quando os jaraguaenses Danusa e Fernando haviam tido uma experiência por lá, em 2016.
E foi lá mesmo, na Bahia, que a jaraguaense aprendeu sobre a permacultura, sistema que transformou o olhar dela com relação a outros seres e a importância de estar em harmonia com todos. Foi uma grande desconstrução, e é isso o que ela leva para o dia a dia.
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Leia também:
O que aprendeu o casal de jaraguaenses que passou 30 dias numa ecovila na Bahia?
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O momento real da “libertação”, como ela mesma chama essa mudança de vida, foi nesta época, em 2015, quando ela começou a viver realmente o que pensa, acredita e o que aprendeu durante essa caminhada.

Vida em comunidade

Depois das inúmeras viagens pelo país, ela foi para Garopaba (SC), se formou em yoga e voltou para casa, em Jaraguá do Sul. Aqui ela se deparou com a antiga casa da avó, herdada pelo pai, e que estava vazia. Ali ela decidiu enraizar o yoga e transformar a casa num "ponto de luz", um lugar onde as pessoas se sintam bem e aprendam mais sobre si mesmas.
E para que isso se tornasse ainda maior e pudesse espalhar para outros jaraguaenses, ela passou a trazer bons movimentos para a casa, como o reiki e a alimentação consciente. Unindo isso e a vontade de experienciar relações, a casa foi aberta a novos moradores, para viver em um ambiente comunitário. Assim cada um poderia trazer coisa novas para compartilhar e ajudar a estruturar projetos voltados ao autoconhecimento. 
Hoje, além de Thina, outra pessoa vive na casa e faz parte dos projetos, ela tem uma marca de produtos veganos e é responsável por promover uma feirinha na casa todas as quartas. "Como toda casa, temos uma rotina para que todos vivam em harmonia, mas a ideia é que cada um coloque um pouquinho de si por aqui e acrescente na vida de cada um com conhecimentos e ideias", diz.

Mas o dinheiro também é importante!

Através do caminho da espiritualidade, Thina traz a questão do dinheiro como uma energia do amor, por isso, quanto mais você se dedica em algo bom, mais você recebe.
Como instrutora de Yoga, ela entende que é importante dar o melhor para que os alunos possam evoluir. Em troca disso, a mensalidade vai contribuir para que ela possa estudar mais, podendo acrescentar mais coisas para a prática deles, é aí que se vê o ciclo se completado.
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Foto: Rafael Verch
E isso não só com o dinheiro, "quanto mais tempo você se dedicar em algo, mais retorno aquilo vai te trazer, desde reconhecimento de outras pessoas, até a simples satisfação pessoal", explica.

Sem supérfluos

Vários são os estímulos que rodeiam as pessoas se apegarem a algo, por isso, para que o processo de desapego funcione é preciso pensar como um todo, pensar no ser. Todos eles! E é a partir disso que se pensa na vida sem supérfluos: desapego + consumo consciente.
“Eu, por exemplo, não consigo ver a destruição do planeta, por isso uso produtos biodegradáveis”, comenta Thina. Assim como não consegue ver o sofrimento dos animais, evita ao máximo não me alimentar de comidas de origem animal. “É uma necessidade da minha alma estar em harmonia com eles. Temos uma alimentação vegana/vegetariana, o que leva a consumir coisas locais, que a natureza te oferece e no tempo dela”, acrescenta.
Ela nos deu um exemplo bem prático de consumo consciente e que está presente no nosso dia a dia. Você vai ao mercado e compra um pacote de bolacha. Veja os pontos:
1 - Você não sabe quem produziu e se na hora de produção alguém estava presente;
2 - Não sabe quem colocou a energia ali naquele alimento na hora da produção;
3 - Assim que acabar a bolacha, vai sobrar o plástico que vai gerar mais lixo;
4 - É algo que não vai fazer bem para o organismo por ter vários componentes não saudáveis;
5 - A pessoa que criou a embalagem colocou o empenho dela ali e, assim que acabar, vamos simplesmente jogar fora o trabalho dela.
É pensando em tudo isso que reduzir o consumo é a melhor forma de viver ao ver da Thina, além de passar a comer alimentos saudáveis e que estão mais próximas de nós, mais naturais.
Por isso, ela cultiva uma horta linda e cheinha de opções que vão parar na mesa dela e dos amigos. “Assim a gente se alimenta do que a terra oferece e na época que ela pode oferecer”, comenta.
E olha que ela chegou até a falar sobre as PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais)? Ela tem de monte e defende que todas as plantinhas têm a sua função no ecossistema, por isso todas devem ficar onde nasceram. Clique aqui e relembre o artigo que fizemos sobre PANCs.
A água? Ela só bebe depois que passa pelo filtro de barro que tem em casa, e sempre de alguma fonte que ela encontra aqui na região.

O futuro

Este é um tema que não vem muito à cabeça dessa jaraguaense que aprendeu a encontrar o próprio ser. O maior sonho da Thina é o agora. Cada dia ela tenta construir algo bom e que talvez aquilo vá influenciar no futuro, talvez as ações de hoje vão preparar o amanhã dela. A principal intenção é estar em harmonia com o mundo.
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Foto: Rafael Verch
“Isso pra mim é viver o simples, estar equilibrada comigo em harmonia com o todo… não necessariamente ter uma casa, ter que viajar. É aceitar o lugar que eu vivo e criar minha realidade nele para poder completá-lo".
Em uma viagem dessas, Thina aprendeu com um senhor artesão três pilares importantes para seguir na vida e que talvez você possa aplicar na sua:
Objetivo: algo que te movimente, te faça acordar todo dia.
Porto seguro: ter um lugar que possa vir sempre se nutrir, se equilibrar, acolher.
Viajar: sair da zona de conforto, ir para o desconhecido e compartilhar talentos e dons com quem está em volta. E, na hora de retornar ao porto seguro, levar todo esse aprendizado para as pessoas de lá.
“Com toda essa caminhada aprendi que, no fim, eu tinha que voltar para Jaraguá e compartilhar todo o conhecimento que adquiri com as pessoas daqui. Elas mesmas estão pedindo pra olhar pra dentro e olhar mais fundo pras relações delas”, finaliza Thina.
Se você se interessou sobre esse estilo de vida e a filosofia vividas pela Thina, é possível acompanhá-la através da página Peregrinos do Ser, no Facebook, que tem publicações voltadas para o tema. E também pelo WhatsApp no (47) 9 9193-8303, para uma conversa mais aprofundada sobre autoconhecimento e vida simples. :)
Foto de capa: Rafael Verch