Existem tantos tipos de exames clínicos, que fico aqui imaginando o tanto de coisa que os médicos do passado aprontaram para chegarmos ao nosso patamar medicinal atual.

Cada vez que recebo uma solicitação de exame, reflito sobre isso. Como descobriram que podiam usar eletrodos para checar os batimentos cardíacos? Quem teve a ideia de descer uma câmera pelo esôfago e olhar o estômago? Como souberam que dava para sentir a próstata com um dedo no ânus? Enfim, curiosidades que a medicina nos desperta.

Digo isso, pois essa semana precisei fazer uma ressonância magnética. Para quem nunca fez, a ressonância é um exame demorado e barulhento, onde o paciente fica deitado, imóvel e é colocado num grande tubo. Eu já havia feito, então, nada era novidade. Como eu iria ficar deitado por quarenta minutos, já fui preparado para tirar uma sonequinha. “Ah, João, ninguém consegue dormir com aquele barulhão”, talvez você pense. E eu te digo: quem tem um bebê de um ano em casa, sabe que precisa aproveitar cada oportunidade de recuperar o sono. Assim, coloquei a roupa que a enfermeira indicou e sentei para responder um questionário padrão: Trabalha com esmeril, alergia, isso, aquilo, tem algum metal no corpo... Como sempre, minhas respostas todas negativas. Estava pronto para deitar e dormir.

As enfermeiras me arrumaram na máquina, na posição adequada e me deram uma campainha, caso precisasse de alguma coisa. Começou o exame, fechei os olhos, e o barulho ensurdecedor parecia cada vez mais distante em minha cabeça. O sono estava embalando. Porém, meus olhos, repentinamente, se abriram, arregalados e, por um instante, parei de respirar. Tive aquela reação de “acabei de me lembrar de uma coisa”.  Sabe qual? Aquela reação de quando estamos no meio de uma festa e lembramos que não desligamos o ferro de passar roupa. A reação de quando acabamos de postar uma foto num jantar divertido e lembramos ter dito pra algum parente que iríamos trabalhar até tarde...

Lembrei que, recentemente, minha dentista parafusou um dente na minha boca. Fiquei pensando no questionário. A voz da enfermeira ecoava na minha cabeça: “Tem parafuso? Tem parafuso? Tem parafuso?” Recordei a placa na porta da sala do exame: “Para sua segurança, não entre com nenhum metal”. Pensei na campainha de emergência na minha mão, se deveria apertar ou não. O problema é que sou uma pessoa envergonhada. Exemplo, no mercado se eu pegar um produto etiquetado por cinco reais e passar por dez, eu pago. Por que tenho vergonha de devolver.

Fiquei pensando: “Meu Deus, essa máquina vai arrancar o parafuso da minha gengiva. Isso vai doer pra cacete. Ou, vou ficar com a cara grudada na máquina. Ou a máquina vai entrar em curto e vai me eletrocutar. E tudo isso por que eu esqueci o parafuso e não tenho coragem de apertar a campainha.”

Aqueles quarenta minutos pareceram dias. Fiquei tão tenso que nem consegui fechar os olhos e, quando o exame acabou e a enfermeira apareceu, eu gritei: Eu tenho um parafuso. Ela não deve ter entendido nada e deve ter me achado meio maluco. Com um parafuso a menos.