Semana passada escrevi sobre o quão importante é os veículos de imprensa terem responsabilidade quando escrevem algo. O microfone, ou o papel e a caneta, podem se transformar em perigosas armas se não forem bem utilizados. Um exemplo prático?

Em 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes concorria à presidência da República. Na ocasião, embora deposto, Getúlio Vargas não havia sido mandado ao exílio e não teve seus direitos políticos cassados nem teve que responder a qualquer processo judicial por atos cometidos no exercício da presidência da República. Expulso do Palácio do Catete, Vargas refugiou-se em sua estância em São Borja, sua cidade natal, na fronteira com a Argentina, no Rio Grande do Sul, numa espécie de “autoexílio”.

Devido ao apoio dado por Eurico Gaspar Dutra à sua deposição, era natural que Vargas o considerasse um traidor e que não apoiasse sua candidatura, porém, com a intervenção de um amigo, Hugo Borgui, tudo se acertou e o apoio foi dado, sob afirmação de que se o brigadeiro Eduardo Gomes ganhasse a eleição, ele, como presidente, desmantelaria todas as realizações do Estado Novo e, muito provavelmente, enviaria Vargas para o exílio.

Borghi, após ter convencido Vargas, cunhou outro famoso lema da eleição presidencial de 1945: “Ele disse: Vote em Dutra!” Este lema foi imediatamente reproduzido em jornais e em panfletos dos partidários do candidato do PSD e do movimento Queremista. Paralelamente a isto, Borghi ainda mostrou sua sagacidade política ao torpedear, fatalmente, as chances do brigadeiro Eduardo Gomes se eleger presidente.

Bem, vamos ao que interessa: Em 19 de novembro, o brigadeiro pronunciou um discurso no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, afirmando: Não necessito dos votos dessa malta de desocupados que apoia o ditador para eleger-me presidente da República! No entanto, Borghi adulterou as palavras do brigadeiro, afirmando, nas rádios e em panfletos distribuídos nas ruas, que o brigadeiro tinha dito: Não preciso dos votos dos marmiteiros!

Rapidamente, a marmita tornou-se o símbolo da campanha de Dutra e do anti-udenismo, revelando-se ser um símbolo popular, proporcionando aos setores populares urbanos um profundo sentimento de pertinência de classe. Acabava-se, assim, qualquer chance de o brigadeiro Eduardo Gomes conquistar a presidência em 1945.

Lembra o que eu disse sobre o papel da imprensa? Inclusive aqui incluo o momento atual das já citadas Fake News. Enfim, corroborando com o que já foi citado, trago para uma seara mais familiar. Nessa semana, o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, general Richard Nunes, classificou como “nefasto” o vazamento de informações relacionadas às investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. Segundo ele, isso retarda o trabalho policial e coloca vidas em risco.

As críticas foram feitas pelo general na sexta-feira (11) durante entrevista à rádio CBN. Ele se referiu à revelação em reportagem do Jornal O Globo de que um delator envolveu o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-policial militar Orlando Oliveira de Araújo no crime.

“Esse vazamento foi nefasto, porque, de certa forma, trabalhávamos com esses dados aí para podermos, com inteligência, produzir provas necessárias para indiciar os autores desse crime”, afirmou o general. “Quando surge um vazamento como esse, temos que reorientar nossa estratégia de investigação. E isso nos causa um retardo”, destacou o secretário.

Nunes disse, ainda, que a revelação dos dados sigilosos “coloca vidas de pessoas em risco e isso é o mais grave”. Questionado se o delator está sob proteção policial, o general afirmou que sim. “Com toda certeza. Principalmente após o vazamento”, disse.

O jornal ganhou em audiência, mas pode ter prejudicado muitas partes da investigação e colocado pessoas em risco. É aqui que pergunto: até onde vale o “furo” em busca da audiência, se avaliado que o ônus pode ser maior que o bônus. Não foi nem uma nem duas vezes que fiquei sabendo de grandes operações policiais e investigações com exclusividade, mas não as divulguei para o bom curso das investigações.