Embora a sensação de travessia do estágio crítico da avassaladora crise sirva para nos revigorar, o latente trauma da escassez ou, na expressão popular, ‘gato escaldado tem medo de água fria’, permanecerá. É evidente, por conseguinte, que conceitos como racionamento, produtividade, eficiência, e prioridade, estejam mais acurados na mente de cada cidadão e gestor.

Notadamente na esfera pública, a lei da escassez, área estudada na ciência econômica, nos dá conta de que os recursos nunca serão suficientes. Por decorrência, mesmo que não houvesse o efeito corruptivo, as necessidades atinentes à sociedade nunca serão integral e simultaneamente atendidas. Então, diante dos parcos recursos, o clamor social determina que, em ordem de prioridade de alocação, deverá vir a saúde, depois emprego, obras, segurança, educação…e, por fim, cultura, esporte e lazer.

Fico imaginando o extenuante exercício político para divisão desse bolo orçamentário. Encaixa-se aqui outro dito popular: ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’. Ocorre que diante de uma forte crise, recomenda-se cortes em todas essas contas ou pastas. Circunstancialmente, vem o clamor social inverter, agora, sua ordem de prioridade, classificando cultura, esporte e lazer como primeiros da fila. Não bastasse essa ordem invertida, o corte é proporcionalmente mais profundo no que tem menos carne. Sem questionar a legitimidade de se apertar o cinto, o providencial ditado aqui poderia bem ser: ‘a corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco’.

Mas há uma variável importante nesse processo que não pode ser ignorada. Não há segredo em administrar abundância. O desafio sempre será administrar a escassez. Como fazer mais com menos. Confesso que tenho dirigido um olhar mais atento para as secretarias do paço municipal, no tocante a gestão dos recursos. Sem exceção, todas as pastas vêm enfrentando e correspondendo, em maior ou menor intensidade, a esse desafio. Tenho observado, outrossim, que cada pasta se submete, efetivamente, a um grau de prioridade orçamentária, porém, jamais conseguiria hierarquiza-las por grau de importância, já que todas são importantes e indispensáveis dentro do sistema. Então, o diferencial ficará por conta de uma variável chamada ‘experiência e competência na gestão dos recursos’. Se, de forma geral, as secretarias vêm fazendo mais com menos, tenho testemunhado que na Cultura, Esporte e Lazer o que vêm sendo feito é milagre. E o provérbio aqui, seria: ‘para bom entendedor, meia palavra basta’.

Sem hierarquizar grau de importância de todas as outras secretarias, fazer milagre nesta pasta é estar orientado com grande parte do mundo que pensa Cultura, Esporte e Lazer como estratégia de desenvolvimento. É ter consciência e clareza do patamar que deverão ser colocadas e tratadas essas áreas enquanto contribuição para o desenvolvimento de uma sociedade. É se acercar de profissionais experientes, determinados, sensíveis e comprometidos com a missão. Somente de posse desses elementos é que será possível o milagre da multiplicação.