Ana Kamila Casagrande | Warren
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Texto escrito por Ana Kamila Casagrande, CFP®

As Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), assim como os demais títulos do Tesouro, são consideradas investimento com risco soberano, ou seja, o investimento mais seguro de um país, por serem títulos emitidos para o financiamento da dívida do governo. E sim, por mais que um governo possa ter seus problemas, em um nível controlado, ele consegue imprimir dinheiro e pagar a sua dívida, mesmo considerando que essa ação possa gerar consequências negativas, como a alta da inflação.

“Mas o tesouro é um investimento de renda fixa. Como pode estar entregando resultados negativos?” Vamos lá! Os títulos do Tesouro se denominam renda, fixa pois seu rendimento será garantido quando levado até o vencimento. Isso quer dizer que, se você compra uma LFT com vencimento em 2025, nesta data a sua remuneração será paga de acordo com a taxa acordada na compra. Durante esse período, o preço do título pode variar, configurando um deságio, que é o momento atual, ou um ágio, que possibilita inclusive a venda antecipada com uma rentabilidade maior.

Alguns fatos se repetem e o que está acontecendo em 2020 não é novidade na vida dos investidores de longa data. O ano de 2002, por exemplo, foi marcado por uma grave crise de confiança no Brasil, onde fatores internos e externos contribuíram para aumentar o risco-país, derrubar a Bolsa de Valores e levar a cotação do dólar ao maior patamar desde a implantação do Plano Real.

Resultado: Tesouro Selic, como era chamado na época, rendeu negativo. O cenário atual tem algumas semelhanças, como o aumento do déficit do governo em função dos auxílios emergenciais liberados para enfrentar a pandemia. Outro ponto é o movimento de redução da taxa de juros do Brasil: em 3 anos, ela foi de 14% ao ano para 2%.

Com a Selic atualmente em 2% a.a., as LFTs estão perdendo a sua atratividade e o mercado sofre com uma alta demanda de venda destes títulos. Segundo a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), em agosto deste ano foram resgatados R$ 3,36 bilhões, enquanto as aplicações ficaram em R$ 2,22 bilhões, resultando um resgate líquido de R$ 1,14 bilhão.

Esse fato gerou um rendimento negativo para os títulos de renda fixa LFTs e a explicação é muito simples: não há comprador suficiente para a demanda de venda e, para suprir essa demanda, acontece o deságio, ou melhor, a queda do preço. Assim funciona o mercado como um todo: ele está disposto a pagar o que a demanda solicita, não necessariamente o seu preço real. Outros exemplos são as ações negociadas na Bolsa de Valores ou até mesmo a compra e venda de imóveis.

Para o investidor não se desesperar, é importante lembrar: todo esse movimento se denomina marcação a mercado e tende a ser momentâneo. Você pode e deve continuar montando a sua reserva de emergência no Tesouro, já que se trata de um investimento com liquidez e segurança. Para fins de diversificação, busque também um CDB com liquidez imediata, assim pelo menos você evita o efeito de marcação negativa no curto prazo e mantém a sua reserva estável.

Se você tem no seu portfólio LFTs ou fundos de investimento que compram títulos dessa categoria, não se preocupe! Caso não tenha necessidade de resgate, mantenha a sua posição até o vencimento. Com o mercado voltando ao normal, os preços tendem a se estabilizar - e, chegando no dia do vencimento, você será pago o retorno prometido na compra.