“♫ Miséria impune, notável, sincera não acaba nunca/ Parecia inofensiva mas te dominou, te dominou, te dominou, dominou” (Quinta-feira, Charle Brown Jr.)

Semana passada o tema foi a possibilidade de sermos mais contidos, opinando menos e, consequentemente, discordando menos. Ou, de forma mais precisa, que deveríamos opinar apenas sobre o que temos algum entendimento concreto, fugindo dos achismos.

Contudo, a internet, como todos já sabemos, criou uns seres que lembram o Batfino, do antigo desenho animado, cuja famosa frase é "Suas balas não me atingem! Minhas asas são como uma couraça de aço!". É só substituirmos a palavra “balas” por “informações corretas” e “asas” por “ignorância”, “burrice”, “teimosia” ou “radicalismo” que temos os Batfinos modernos, só que do mal.

Falando demais...

Certas pessoas não se controlam quando têm uma opinião que consideram inequívoca e à prova de qualquer erro, especialmente quando se trata de um assunto polêmico, de confirmação de alguma crença sua ou polarizada.

Por mais que interlocutores apontem falhas no raciocínio ou demonstrem que algo diferente já foi provado ou comprovado, a pessoa insiste que a sua teoria é a melhor, e mais óbvia, e mais certa, e inequívoca e já foi dita por alguém. Quem? Não interessa! Um alguém qualquer, mas supostamente importante.

E, por encontrarem repercussão nas redes sociais, estas certas pessoas começaram a se sentir confortáveis de vomitar sua verborragia na vida real, nos encontros de família, de amigos, ou em qualquer lugar que um incauto pare para lhe dar atenção. Uma verdadeira logorreia!

Falando de tudo.

Essa logorreia acaba conquistando outras pessoas, aquelas que preferem aceitar essas informações – desde, é claro, que confirmem suas crenças (políticas, filosóficas, pseudocientíficas, etc.) – a pesquisar e confirmar se o que está sendo dito faz sentido ou simplesmente se é verdade.

Afinal, na internet a verdade não interessa! Prevalece a vontade! A vontade de quem está dizendo.

Nessa linha, lembro do que aprendemos nas aulas de história (pelo menos aquelas aulas nas quais não havia negacionismos, mas podíamos discutir em alto nível com nossos professores sobre fatos e versões. E tive uma excelente professora de história no meu primeiro grau, em Joinville, a professora Marília, com seus incríveis mapas desenhados no quadro no início das aulas), sobre prevalecer a versão dos que vencem as guerras. É fato. Se outros fossem os vencedores, outras seriam as versões.

Contudo, lendo o livro sobre o surgimento do Twitter (A eclosão do Twitter: uma aventura de dinheiro, poder, amizade e traição, de Nick Bilton), uma frase mudou um pouco minha percepção sobre a história daqui em diante. Diz lá, ainda que de forma meio sarcástica, que prevalece agora a versão de quem grita mais alto, ou, em tempos internéticos, de quem consegue ter seu tuíte ou sua postagem compartilhado, ou repostado mais vezes.

Há casos em que a intenção de quem propaga mentiras ou fake news não é ruim. Parece inofensivo. Mas, no final, pode dominar tudo, inclusive a mente de quem não checa suas origens. E pode ser que, no final, a situação toda se torne uma miséria impune, notável, que não acabe mais.