“♫ Sexo! Como é que eu fico sem sexo!/ Eu quero sexo! Me dá sexo!/ Sexo! Como é que eu fico sem sexo!/ Eu quero sexo! Vem cá sexo!” (Sexo, Ultraje a Rigor)

“- E isto - disse o Diretor, abrindo a porta - é a Sala de Fecundação.

No momento em que o Diretor de Incubação e Condicionamento entrou na sala, trezentos Fecundadores, curvados sobre os seus instrumentos, estavam mergulhados naquele silêncio em que apenas se ousa respirar, naquele cantarolar ou assobiar inconsciente por que se traduz a mais profunda concentração. Uma turma de estudantes recém-chegados, muito jovens, rosados e bisonhos, seguia com certo nervosismo, com uma humildade um tanto abjeta, as pisadas do Diretor. (...). Sempre apoiado contra as incubadoras, forneceu-lhes, enquanto os lábios corriam ilegivelmente de um lado a outro das páginas, uma breve descrição do moderno processo de fecundação; falou-lhes primeiro, naturalmente, da sua introdução cirúrgica - "a operação suportada voluntariamente para o bem da sociedade, sem esquecer que proporciona uma gratificação de seis meses de ordenado"; continuou com uma exposição sumária da técnica de conservação do ovário, secionado no estado vivo e em pleno desenvolvimento; passou as considerações sobre a temperatura, a salinidade e a viscosidade ótimas; fez alusão ao líquido em que se conservavam os óvulos destacados e chegados à maturidade; ...”.

Esse é um trecho inicial do fantástico e indispensável romance distópico “Admirável mundo novo”, de Aldoux Huxley, publicado pela primeira vez em 1932. Para quem não captou a essência, trata-se da apresentação dos alunos a uma fábrica de pessoas. Sim, a uma fábrica de gente mesmo. Mais do que isso, as pessoas são fabricadas conforme a necessidade da sociedade. De acordo com sua composição no parque fabril, podem ser trabalhadores ou socialites, entre outras castas. Paro por aqui para não dar spoiler. Nesses tempos estranhos, ao lado de 1984, Fahrenheit 451 e O senhor das moscas, Admirável mundo novo é leitura obrigatória.

Não faremos mais sexo?

Ao que tudo indica, não. O futuro nos reserva esta surpresa. Não faremos mais sexo para procriar. Sexo servirá apenas para o prazer. Em quanto tempo isso acontecerá? Não sei. Décadas, séculos? Se fosse para apostar, considerando a evolução tecnológica e dos estudos biológicos e genéticos, ficaria com “décadas”.

Claro, há muitos impasses a serem discutidos, religiosos, éticos, econômicos. Contudo, pergunto ao leitor, sem hipocrisia, quantas pessoas você conhece que não utilizariam a tecnologia para ter certeza que seus filhos teriam uma vida saudável, resistentes a doenças, mais fortes e mais inteligentes? E você próprio?

O sexo continuará, claro. Ou pelo menos, eu acredito nisso (se virtual, no metaverso ou real, aí já não sei dizer). Mas será para prazer, como no livro que iniciou esse texto, e não para fazer filhos com chances de não virem perfeitos.

Super-humanos!

Hoje vivemos mais do que nossos antepassados. No futuro as pessoas viverão muito mais. Talvez sejam eternas, do ponto de vista biológico, morrendo apenas por acidentes ou assassinatos.

Nesse meio tempo a humanidade verá super-homens e supermulheres. Em relação a hoje, não tenho dúvida – se não houver nenhuma hecatombe nuclear no meio do caminho – que as pessoas serão mais fortes, mais saudáveis e mais inteligentes. Acredito que isso seja bom. Não conheço quem goste das dores da idade ou da senilidade mental e física.

Panoramas interessantes, embora eventualmente sombrios, que tratam desse assunto, são trazidos por Harari, na sua obra Homo-deus, e Metzl, em Hackeando Darwin.

Estamos à beira de tempos realmente novos. Só não sei se estamos preparados.