“♫ Amou daquela vez como se fosse a última// E atravessou a rua com seu passo tímido/ Subiu a construção como se fosse máquina/ Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/ Tijolo com tijolo num desenho mágico/ Seus olhos embotados de cimento e lágrima” (Construção, Chico Buarque).

A preocupação de muitos, já há algum tempo, é o nível de empregabilidade no futuro com o incremento da tecnologia e da inovação. Alguns com calorosos debates técnicos ou acadêmicos, outros com medo de sentir na pele – ou já sentindo. O que ninguém nega é que a substituição de homens por máquinas não é novidade: desde a primeira revolução industrial vem acontecendo. O que tem mudado é a velocidade.

Nas minhas aulas e palestras uso a própria advocacia – minha principal profissão há mais de 26 anos - como exemplo. Os advogados vão sucumbir? Sim e não. Sim, a advocacia vai desaparecer na forma como é praticada hoje; e não, vai persistir ainda por bastante tempo, desde que os advogados entendam as mudanças que estão ocorrendo. Este raciocínio vale nas mais diversas áreas, em boa parte dos casos.

Apagadores de lampiões

Ressalte-se que a preocupação é válida, afinal há estudos que apontam que em menos de uma década mais de 50% dos atuais trabalhos no Brasil serão substituídos por robôs. No resto mundo não será diferente. A Amazon, em 10 anos, pretende não ter trabalhadores humanos em seus centros de distribuição. Até 2050 prevê-se que 80% da frota mundial de veículos seja autônoma. Robôs já fazem música erudita, comidas de chefs e análise de contratos. Em geral são mais rápidos, eficientes e baratos que os seres humanos.

Mas não é para entrar em pânico. Alguém aqui já viu um acendedor de lampião de poste ou um despertador humano? Esbarrou hoje com um algum datilógrafo ou telefonista em atividade ou com algum atendente de videolocadora? Por outro lado, quantas pessoas trabalham nas concessionárias de energia elétrica e nas empresas de telemarketing? Quantas profissões surgiram com os smartphones e seus aplicativos, e nas empresas de streaming como Netflix e Spotify?

Algumas desta novas profissões também desaparecerão. E outras vão surgir.

Qual a profissão das crianças de hoje?

Dependendo da fonte, projeta-se que entre 60 e 85% das crianças que entram hoje no ensino fundamental exercerão atividades que ainda não existem. Essas crianças entrarão no mercado de trabalho daqui 10 a 15 anos, ou seja, praticamente amanhã, e desconhecemos a profissão que boa parte delas exercerá.

Hoje perguntar para uma criança o que ela vai ser quando crescer é ter a chance de 70% de errar mesmo se arriscar todas as profissões que conhecemos!

Aproveitaremos a vida nos moldes do livro Admirado Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou viveremos fugindo num cenário do filme O Exterminador do Futuro? Não sei e não acredito em nenhuma das duas hipóteses. Mas assim como o pedreiro da música do Chico está sendo substituído por máquinas e robôs, boa parte das demais profissões também o será. Inclusive o próprio compositor...