“♫ Mandei fazer/ De puro aço luminoso um punhal/ Para matar o meu amor e matei/ Às cinco horas na avenida central/ Mas as pessoas na sala de jantar/ São ocupadas em nascer e morrer” (Panis et circenses, Os Mutantes)

Nas duas últimas semanas escrevi sobre interatividade ininterrupta e Internet dos Corpos. Estamos o tempo todo conectados, nossos ambientes, nossos corpos, nossos cérebros. Talvez não estejamos, na média, preparados para tanto. Ganhamos tempo e, ao mesmo tempo, emburrecemos.

Será que há, além destes, outros impactos que a internet pode causar no nosso cérebro e no nosso comportamento?

Estamos enlouquecendo?

Um antigo artigo da revista Newsweek retrata este viés. Começa com a história de um homem nos EUA que passou repentinamente do anonimato à “famosidade” mundial na grande rede. Um mero desconhecido que fez uma postagem que alcançou 70 milhões de visualizações em menos de uma semana. Foi metralhado por elogios e críticas virulentas, foi perdendo o sono, aumentando a publicação de coisas sérias e bobagens e culminou nu, num cruzamento movimentado, batendo no chão com as duas mãos, falando do diabo. Foi diagnosticado com psicose reativa, uma insanidade temporária.

Além de mais burras e solitárias, as pessoas estão ficando mais deprimidas, ansiosas e obsessivas-compulsivas. Teria, a internet, os efeitos de drogas como a cocaína ou o crack?

A internet teria o potencial de aniquilar o cérebro das pessoas, especialmente se estas pessoas entram em simbiose com essa tecnologia desde quando são pessoinhas de poucos anos (ou, como já vi, alguns meses) de vida?

A internet promove a insanidade?

Neurocientistas, psicólogos, institutos conceituados, estão identificando há mais de uma década pessoas com ciclos maníacos seguidos de momentos de depressivos em decorrência do uso excessivo da internet.

Países como China, Taiwan e Coréia do Sul desde o início da década passada já tratam o uso problemático da internet como crise nacional de saúde. Não são tão incomuns, nesses países (e não só) relatos de jovens e adolescentes que morreram em frente ao computador jogando ininterruptamente. Houve até o caso de um casal jovem cujo filho morreu por negligência enquanto eles alimentavam um bebê virtual na internet.

Todo mundo conhece alguma pessoa – ou se reconhece – que fica nervosa, ansiosa ou desatenta se percebe que está sem o celular, mesmo que não precise dele ou nem possa usá-lo no trabalho. Ou que tem a sensação de que o aparelho está vibrando no bolso da calça, sem, de fato, estar (e às vezes sem sequer estar no bolso da calça). Isso já tem até nome. No primeiro caso é nomofobia e, no segundo, síndrome do toque fantasma.

Estamos ficando loucos? Será esse o objetivo das máquinas: nos enlouquecer e dominar o mundo?

O assunto não é nada fácil e não há respostas prontas, mas as pessoas na frente das telas são ocupadas em nascer e morrer. Esquecem de viver.