Confesso que sempre fui crítico com relação à concepção de mobilidade urbana fundamentada em automóveis poluidores. Tenho sustentado que nos aproximamos do que poderíamos chamar de ‘colapso paradoxal’, ou seja, quanto maiores e mais velozes se tornam os veículos, mais vagarosamente nos locomovemos. Quanto mais seguros e inteligentes, mais vítimas são geradas, seja por acidentes ou por sedentarismo.

A capacidade estrutural urbana nunca crescerá na mesma velocidade de produção de veículos. A propósito, tem coisa mais inadequada do que aqueles ‘banheirões’ poluindo e congestionando o fluxo para conduzir um único cidadão? Refletindo sobre esse modal insustentável, decidi há um ano, substituir o carro pelas pernas ou Uber, sempre que possível.

São incontáveis os benefícios que tenho agregado com esse novo hábito. Me dei conta de que, entre “perder” 20 minutos de carro para ir e voltar ao trabalho, e “ganhar” uma hora indo e voltando a pé, há um mundo de oportunidades e interatividade a ser absorvido. Além de somar para minha saúde ‘físico-mental-econômica’, e contribuir para sustentabilidade ambiental, passei a observar os detalhes e particularidades da cidade, e seu mutante temperamento matutino e vespertino.

Esse precioso tempo possibilita o exercício da observação e reflexão, com experiências inusitadas e gratificantes, como a vivenciada numa fria manhã dessa semana. Eu caminhava pela calçada, e a uns 10 metros na minha frente, um catador de lixo puxava seu carrinho de mão abarrotado de recicláveis. Um lado da carga se desprendeu e boa parte caiu na via, obrigando os carros a desviarem. Então parei, o cumprimentei e ofereci ajuda. Com semblante surpreso me disse: “deixa, você vai sujar sua roupa”. Ao que respondi: nada que água e sabão não resolvam meu amigo.

Então, com uma voz mais contida, indagou: “mas porque tá fazendo isso?”. Porque é o certo a ser feito, disse eu. Com a carga reorganizada, pedi licença para sentir o peso do carrinho. Não puxaria por 10 metros. O indelével semblante perplexo daquele homem, levou-me a compreender que quando a dignidade está anulada, o respeito surpreende!