Era uma agradável manhã de outono daquele inesquecível 9 de abril de 1995. Ansioso e isolado em um quarto da ala da maternidade, cuja janela aberta dava para o pomar, eu contemplava um exclusivo raiar do dia. Subitamente, um passarinho pousou, por alguns segundos, na soleira da janela. Viera anunciar a boa nova, pois naquele mesmo instante alguém batia à porta. Ao atender, o obstetra me disse: quer segurar sua filha? Então eu respondi: pra sempre, doutor.

Senti o quão transformador é segurar um ser que nos complementa. Eu assumia naquele instante, a sublime, desafiadora e intransferível missão de ser pai, desprovido de ‘manual de instrução’. Meu primeiro desafio foi superar a angústia velada dos chorinhos e gemidos naturais de qualquer recém-nascido. Vencida essa etapa, me dei conta de que a missão de pai nos é apresentada diariamente como sendo um privilegiado conflito realizador.

Caminhamos na constante busca da imaginária medida correta. Como estas não se revelam cartesianas, nos sobrevém as angustiantes e reinantes dúvidas. Somos então, desafiados pelas proporções. Nos perdemos entre quantos presentes damos, e quanto nos damos de presente; quanto corrigimos e punimos os erros, e o quanto os ensinamos a refletir; não temos a dimensão do quanto os vestimos e os alimentamos o corpo, e o quanto os nutrimos a personalidade e o caráter; quanto os treinamos para o mercado e a competitividade, e quanto os educamos para a vida; desconhecemos a proporção do quanto os estandartizamos de acordo com nossa própria estampa, e do quanto os respeitamos a individualidade; não temos a bússola do quanto os impomos a direção, e do quanto os mostramos o caminho; o quanto garantimos segurança e proteção, e o quanto os proporcionamos liberdade, ensinando a voar. Enfim, por não termos certeza da dosagem correta, transitamos entre a intuição, a razão e a emoção.

Até aqui você ainda não foi submetido à prova dramática da missão e, tampouco, estudou sobre o tema. Ela versa sobre as escolhas e decisões amorosas dos filhos. É nessa dimensão que se revelam as mais variadas, inusitadas e ocultas manifestações e reações desse bravo e frágil ser humano, pai. Então, já que “a vida imita a arte”, proponho aqui uma analogia ilustrativa. Você pai, que porventura conhece o drama shakespeariano, ‘Romeu e Julieta’, episódio fiel e revelador da frágil natureza humana, certamente se auto indagará: e agora? Sou um ‘Montecchio’ ou um ‘Capuleto’? Se passar nessa verificação, terá passado com recuperação. No entanto, amigos pais, independentemente da nota que tiramos, ou iremos tirar, há uma questão desta prova que sempre acertaremos sem sombra de dúvidas: o amor é incondicional e daríamos a vida por eles. Feliz Dia dos Pais!