O destaque da semana ‘planaltiana’ ficou por conta do cerimonial de posse do novo comandante onipotente e onisciente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cerca de dois mil seres onipresentes, representantes dos três poderes, lotaram o plenário do TSE. Para o deleite dos súditos, não passou desapercebido um semblante sequer, das atentas lentes midiáticas. Diante dos ritos e mitos, fica o dito: a plástica da solenidade foi digna de prêmio de melhor fotografia.

Desprovidas de roteiro, as inusitadas cenas exibiram uma linguagem própria, demonstrando fielmente as ilimitadas possibilidades de despertar nossos instintos e expressar nossas emoções. O ódio coabitou, em essência, as duas dimensões do magnificente cenário: a tribuna e a pista. Como fenômeno antropológico complexo, e um dos prazeres mais primitivos da espécie humana, o ódio se vale de qualquer meio, instrumento ou expressão para se manifestar.

Na suntuosa solenidade, ele se revelou nos mais variados semblantes e nas dissimulações antagônicas: os arreganhados contra os trombudos; os aclamados contra os admoestados; os presunçosos contra os vilipendiados, e a perplexa cereja do bolo da ‘conversinha pé de orelha.’ Por isso, penso que o mortal cidadão empoderado do voto, não deve se agarrar na cauda desse cometa midiático para orientar sua escolha. Antes disso valeria refletir sobre o que desencadeia essa reação a que todos estamos sujeitos, já que figuramos uma mesma condição natural, ou, uma mesma tragédia humana, quando o enredo é a destilação do ódio.

O voto não pode estar impregnado desse sentimento. Votar não é expressar emoção, tampouco torcida. Voto pressupõe sobriedade, racionalidade e responsabilidade. O que vi naquela solenidade foi uma cômica fantasia a qual nunca poderia estimular um voto sequer. Entretanto, tenho consciência de que isso é utopia, pois, no mundo da política, a realidade precisa ser fantasiada, ou não seria política. Logo, quanto mais fantasiosa a realidade, mais expressiva a votação. Vejo uma explicação para isso: o dono do voto, mesmo com ódio, precisa fantasiar sua esperança.