A história nos relata e comprova que em final do sé- culo XVIII, o Brasil, ainda na condição de colônia portuguesa, sofria com os abusos políticos e com a cobrança de exorbitantes impostos. Como se não bastasse, a Coroa Portuguesa instituía uma série de leis que reprimiam o desenvolvimento industrial e comercial no país. Por conta disso, e por influência dos ventos iluministas que sopravam na Europa, redemoinhos de oposição ao imperialismo colonial começaram a se formar por aqui. A ‘Conjuração Mineira’, liderada por Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, fora a mais significativa. Essas mobilizações emancipacionistas eram norteadas por ideais e princípios republicanos. Buscavam o que sempre se buscou e continuamos buscando: liberalismo com racionalismo, baseado na livre concorrência; igualdade de direitos; fim dos privilégios aos nascidos em berço de ouro; extinção de restri- ções mercantilistas; constituição de um Estado laico e não opressor. Pois bem, por conta desses movimentos, herdamos a República e com ela suas mazelas. Se os patrícios monarcas rechaçaram a imagem de Tiradentes, com a inversão semântica para ‘desconjurado inconfidente’, a República o transformou em um mártir confidente. Indubitavelmente, caro leitor, você está mentalmente estabelecendo agora uma estreita correlação com nossa atual realidade. É muito provável que você tenha se dado conta que da lógica exploratória só mudou o ‘modus operandi’, mas não a essência.

Pois bem, se você se identificou com essas asserções, é normal que você esteja se sentindo um pouco Tiradentes. Só não caberia se sentir inconfidente. Outrora, inconfidente, na real acepção da palavra, fora Joaquim Silvério dos Reis, o ‘traíra’ delator. Inconfidente também fora a ‘louca’ Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana, ou simplesmente D. Maria I, rainha de Portugal, para com a pena aplicada ao alferes insurgente. Enfim, inconfidentes foram nossos colonizadores dos quais nada herdamos senão uma Nação malformada e com um futuro passado. Ou como bem sintetizou Darcy Ribeiro, “somos um povo sem ser, impedido de sê-lo, abandonado no limbo da ninguendade”. Guardadas as circunstâncias do momento presente, inconfidentes, na semântica correta da palavra, são agora nossos governos, nossos representantes, salvo poucas exce- ções. Inconfidentes são os três poderes de nosso Congresso Nacional. Por decorrência, inconfidentes são nossos serviços de educação, saúde e segurança. Inconfidente parece ser o futuro de nosso país. É importante que compreendamos que a inconfidência nunca fora obra de heróis e seu povo, pelo contrário, sempre esteve a cargo do opressor. Portanto, tenhamos consciência de que o movimento popular de ‘conjuração’ contra um Estado mastodôntico, ineficiente e injusto, já não pode significar rebeldia, mas sim, cidadania.