É muito provável que os cinéfilos de plantão tenham recebido com surpresa, durante a semana, a inusitada decisão do jovem ator britânico Ed Skrein, ao declinar de sua participação no elenco do novo filme, ou ‘remake’, sobre o herói dos quadrinhos “Hellboy”, previsto para 2018.

Se hoje o modesto astro do cinema não integra a atual constelação formada por Johnny Depp, DiCaprio, Angelina Jolie, Jack Nicholson, Matt Damon, Brad Pitt, Will Smith, Denzel Washington, George Clooney e outros cachês expressivos de Hollywood, pelo menos o personagem ‘Major Ben Daimio’ a ele designado o colocaria na trilha da áurea constelação.

O fato digno de evidência é que ele simplesmente abriu mão de uma grande oportunidade em sua carreira, e com a seguinte justificativa: “Eu aceitei o papel sem saber que o personagem possui uma herança asiática. Houve muita discussão e uma irritação compreensiva desde o anúncio, e devo fazer o que é certo”, declarou Skrein.

Seguiu fundamentando sua decisão assim: “É aparente que representar este personagem de maneira culturalmente precisa é importante para as pessoas, e que negligenciar esta responsabilidade contribuiria para continuar uma tendência preocupante do apagamento de minorias étnicas e suas vozes no meio das artes”.

E concluiu defendendo que, “representar diversidade étnica é importante, especialmente para mim, que possuo uma ascendência diversa. É nossa responsabilidade fazer escolhas morais em momentos difíceis para dar voz à inclusão. É minha esperança de que estas discussões se tornem menos necessárias no futuro”.

O episódio reacendeu a polêmica da ‘whitewashing’, que denuncia a prática antiga e recorrente da indústria cinematográfica americana em escalar elencos de atrizes e atores brancos para papéis de raça, cor ou etnias diferentes, como asiáticos, latinos, negros, indígenas, albinos, anões, etc. Por ironia do destino, ‘Hellboy’, o heróico demônio do bem, imbatível contra os males do mundo, é assombrado agora por um inimigo real, resistente e impertinente, o ‘estereótipo holywoodiano’.

É óbvio que os argumentos pró e contra a essa prática da indústria cinematográfica são os mais diversos, e todos merecem debates aprofundados. No entanto, nenhum deles chega a aplacar minha inquietude diante dessa realidade: oras; se “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”, como bem proclamara Oscar Wilde, a originalidade de conteúdo ou roteiro, alma de qualquer filme, não deveria transcender estereótipos como cor de pele, etnia, gênero, o que quer que seja?

Particularmente, amenizo minha inquietude esperando sempre de um promissor filme, o equivalente ao que esperaria de minha filha branca anunciando se casar, porventura, com um homem negro: a felicidade. E com espírito emancipado alimento minha convicção, traduzida da melhor forma pelo sábio ator hollywoodiano Morgan Freeman, “o dia em que pararmos de nos preocupar com consciência negra, amarela ou branca e nos preocuparmos com consciência humana, o racismo desaparecerá”.