Não possuo animais de estimação, mas estimo quem os tem e cuida com responsabilidade, respeito e afeto. Considerado um fenômeno mundial da nova sociedade humana, guardadas as peculiaridades culturais de cada país, no Brasil o número de animais que convivem com as famílias supera a de crianças de até 12 anos. As taxas de natalidade dão conta de que temos mais animais de estimação do que crianças nos berços.

Significa que se registramos, em média, 1,6 criança por família, essa proporção com animais de estimação já passa de 2 por domicílio. Mas esses indicadores também podem traduzir que temos menos crianças com fome e mais animais abandonados e maltratados. Isto porque, juntamente com o volume dessa inversão vem o modismo, ou seja, adquire-se por impulso, sem estrutura física e emocional, e depois se descarta.

Espera-se que a recente Lei 13.426/2017, assinada pelo nosso presidente, possa de fato controlar a natalidade de cães e gatos, assegurando bem-estar e evitando que o número de abandonados e maltratados aumente. Este tema tem, naturalmente, dividido opiniões e estimulado muitos debates, que vão desde a questão dos direitos até valores e crenças religiosas.

Por conta de nosso perfil de sociedade majoritariamente conservadora, que vê como pecado o sexo fora do contexto da procriação, passa a ser chocante e inaceitável que o número de animais de estimação tenha suplantado o de crianças. O fato inconteste é que passamos a ter uma relação mais estreita com os bichinhos e, por conseguinte, uma extensão do princípio de igualdade.

Não se concebe mais a expressão “é apenas um animal”. Já não ecoam falácias como, “os animais não tem sentimentos como os seres humanos”. Oras, mesmo que ‘aparentemente’ não tenham, não justifica não terem ‘concretamente’ direitos fundamentais. Já se fazem irrelevantes argumentos como, “dá-se maior atenção aos animais do que aos humanos”. Que bom, pois entre os dois quem é mais vulnerável e vitimado?

Penso que estamos muito próximo do que profetizara o gênio Da Vinci, “chegará o dia em que um crime contra um animal será considerado um crime contra a própria humanidade”. Teríamos avançado mais um degrau em nossa condição de humanos. Por ora, nos encontramos à espreita, ensaiando o legado do sensível e expressivo Kant, “podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais.” Esses seres que nos ensinam a difícil virtude da fidelidade são dignos de respeito e família sim.

E aos humanos agressores e violadores de seus direitos, dirijo o juízo do irreverente e sábio Carpinejar, que nos brindou com sua presença na Feira do Livro: “mal sabem estes da verdade. Um gato sofrendo não mia, um cachorro sofrendo não late; na dor ambos são crianças e gemem humanamente”. Respeito aos animais é premissa de sociedades evoluídas.

LEIA MAIS:

- Entrevista com Carpinejar: “A gente precisa perder tempo para ter amigos”