Nunca imaginei que a fusão de coronavírus com política pudesse provocar uma hecatombe a ponto de esfacelar uma República. Tenho a sensação de estar fora da órbita desse sistema idealizado por Platão. Por curiosidade, decidi revisitá-lo, me apropriando de sua atemporal obra “A República”, só para ter uma ideia de quão longe fui, junto com o povo, arremessado. Enquanto releio o clássico tratado, me imagino sentado com o Platão. Ele me perguntando sobre o panorama brasileiro e eu respondendo que tá uma M. Agora, eu perguntando a ele o que nos falta para sermos uma República platônica e ele respondendo que falta reduzir a M.

Sigo com minha leitura onde o texto versa sobre política, justiça, virtude, ética, sociedade e soberania. Na medida que vou absorvendo o conteúdo, vou estabelecendo, mentalmente, um paralelo com nossa realidade tupiniquim. Nesse momento, sinto-me orbitando elipticamente um núcleo que não é o sol, mas tá pegando fogo. Mas o que busco mesmo, é a essência do conceito de República. Ao rever que o termo advindo do latim, “res publica”, enfatiza o bem público e o interesse geral como princípio de atuação do Estado, sinto-me vagando preso no espaço sideral.

Continuo meu mergulho pelas páginas da clássica obra indagando Platão em minha imaginação: mestre, então posso considerar que a essência da República é a supremacia do bem comum sobre qualquer desejo particular? E ele me respondendo: pode sim, mas não é só isso. Considere, também, que numa autêntica República, que não seja de bananas, não pode haver distinções entre nobres e plebeus, entre poderosos e humildes, entre gêneros, raças, credos, orientação sexual, além de não se aceitar a diversidade de leis aplicáveis aos casos substancialmente iguais, as jurisdições especiais, as isenções de tributos comuns, que privilegiem determinados grupos ou indivíduos.

Ademais, não se concebe República com arbítrio no exercício de qual seja o poder constituído. Ela tem, como seu grande propósito, a justiça. Enfim, enquanto a sabedoria e a liderança política não habitarem o homem público, as cidades e a raça humana, jamais se libertarão do mal. Imagino-me, agora, sendo sugado por um buraco negro.