Numa agradável e serena manhã de outono, de um inesquecível 9 de abril de 1995, eu experimentei a maior ansiedade da minha existência. Isolado em um quarto da ala da maternidade, cuja janela aberta dava para um pomar, eu contemplava um exclusivo raiar do dia. Subitamente, um passarinho pousou, por alguns segundos, na soleira da janela. Viera anunciar a boa nova, pois naquele mesmo instante alguém batia à porta. Ao atender, o obstetra me disse: quer segurar sua filha Paula? Então eu respondi: pra sempre, doutor.

Naquele momento único, senti o quão transformador é segurar um complemento, ou extensão, de si próprio. Eu assumia naquele instante, a sublime, desafiadora e intransferível missão de ser pai, desprovido de ‘manual de instrução’. Minha primeira superação foi relativizar a angústia velada dos chorinhos e gemidos naturais de qualquer recém-nascido. Vencida essa etapa, me dei conta de que a missão de pai é apresentada diariamente como sendo um privilegiado desafio realizador.

Como muitos, sou o tipo do pai que caminha na constante busca da imaginária medida correta. Aquele que vive em constantes dúvidas, e implacavelmente desafiado pelas ‘proporções’ em relação a única filha. Estou entre aqueles pais de labirinto. O que se perde entre quantos presentes lhe dá, ou quanto se dá de presente; quanto corrige e pune os erros, ou quanto a ensina refletir; quanto a veste e a alimenta o corpo, ou quanto a nutri a personalidade e o caráter; quanto a treina para o mercado e a competitividade, ou quanto a educa para a vida; quanto a impõe a estampa do pai, ou quanto respeita a individualidade; quanto traça a direção, ou quanto lhe mostra o caminho com bons exemplos; quanto a retém segura e protegida debaixo das asas, ou quanto a ensina voar.

Enfim, por não ter certeza dessas dosagens, sou daqueles pais que transitam entre a intuição, a razão e a emoção. E então, quando você menos espera, vem a prova dramática da missão, que é dizer: vá, voe, o mundo é todo seu. É a prova mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais reveladora, pois, mostra que a saudade é abrandada pela certeza do crescimento e fortalecimento. Por isso, nesse primeiro aniversário sem abraço físico, senti que a expressão “amor não tem distância” não é só poética, mas, uma fortalecedora e enriquecedora realidade. Sigo me vendo um pai na constante busca da imaginária medida correta da educação, mas que, paradoxalmente, a única medida que tem certeza é a do amor, por ser imensurável. Feliz novo ciclo amada filha.