Aquele acadêmico contou-me que havia lido o título daquele texto, exposto num panfleto A4, afixado no mural do corredor da universidade. “Desintoxicar-se”. Embora ele não tenha lido o conteúdo textual, aquele título bastou para lhe remeter aos vícios do cigarro, das latinhas diárias, das regulares drogas ilícitas, e até do chocolate.

Determinou que o novo ano que se iniciava iria, decididamente, livrar-se dos grilhões de suas dependências. Como eu já havia lido aquele texto, pensei em lhe explicar o teor. Tinha mentalmente ensaiado lhe dizer que aquilo não se tratava de dependência química, mas que o texto discorria sobre ‘moral’.

Enquanto ele relatava seu drama existencial de tentativas e recaídas, eu ensaiava uma linguagem didática capaz de lhe traduzir aquela mensagem produzida com requintes de filosofia. Titubeei. Achei por bem mantê-lo instigado por aquele simples título, já que a causa era nobre. Ademais, eu poderia estar salvando uma vida só pelo fato de não lhe revelar o teor do texto. Assim, por instantes, fiquei com o teor e ele com o título.

Em dado momento, interrompi sua fala e lhe disse que eu também havia me autodeterminado a uma jornada de desintoxicação para o ano novo. Surpreso, me indagou quais eram meus grilhões. Apenas respondi que minha intoxicação não era química, mas demandaria muito esforço e disciplina para me livrar. Ele, apoiado em sua moral ortodoxa determinista, disse-me que lutaria com afinco contra seus fantasmas: a fraqueza, o medo, a impotência, a covardia e o ódio.

Sugeri que iniciasse negando a moral ortodoxa draconiana, que classifica todos esses fantasmas como ruins, e buscasse se orientar numa moral nobre. Atônito ele retrucou: como assim? Indaguei-o se já havia procurado enxergar a fraqueza como mérito, o medo como humildade, a impotência como bondade, a covardia como paciência? Complementei que, se assim o fizesse, até o ódio poderia se converter em amor. Isso nunca me passou pela cabeça, disse ele.

Eu já estava em retirada quando ele insistiu em qual seria a minha luta. Bem, disse eu: obscurantismo. Ah é? Sim, pretendo me imunizar contra um vírus que paralisa o cérebro e não tem poupado idade, gênero, ou classe social. Identificado como “estupidez coletiva”, esse vírus já se alojou em 11 milhões de brasileiros. Se multiplica via redes sociais. Atônito ele indagou: e como saber se alguém está infectado? Pergunte se a terra é plana. Ele dirá que sim.