Não há como ignorar o fato de que, cada qual, vivemos dentro de uma determinada bolha existencial. De antemão, o melhor dimensionamento de bolha, eu creditaria ao filósofo Cortella, quando afirma que “tu és um indivíduo entre outros 8 bilhões de indivíduos, compondo uma única espécie dentre outras 3 milhões de espécies já classificadas, que vive em um planetinha que gira em torno de uma estrelinha, que é uma entre outras 100 bilhões de estrelas, compondo uma única galáxia entre outras 200 bilhões de galáxias, num dos universos possíveis que de tanto se expandir, um dia desaparecerá.” Por essa perspectiva, estamos todos numa infinitesimal bolha.

Entretanto, transportando para o ‘populês,’ pretendo representar, aqui, a ideia de bolha como sendo o limítrofe de percepção de mundo que envolve um indivíduo. Isso nos remete a seguinte autoindagação: vivo num bolhão, numa bolha ou numa bolhinha? Óbvio que, por questão de ego, todos se autosituarão dentro do bolhão. Então, para minimizar as dúvidas, eu recomendaria a seguinte reflexão: quanto ignoro, ou quanto não reconheço, as infinitas possibilidades do mundo extrabolha? O poder das redes sociais deixou muito mais cristalina a leitura e dimensionamento das bolhas.

Particularmente, por eu estar inserido no mundo da comunicação, consigo, com relativa facilidade, identificar os perfis alojados nas bolhinhas, nas bolhas e nos bolhões. Os bolhinhas não enxergam o mundo do lado de fora. São os adeptos e obedientes cegos das mais variadas doutrinas; os avessos a alteridade; os idólatras de líderes mortais, de ideologias extremistas e símbolos; os ‘canceladores’ do contraditório; os fariseus ortodoxos ultramoralistas; os rivais da ciência e tecnologia; entre outras características que não caberiam num livro de mil páginas.

Vou me utilizar aqui, de um providencial exemplo ilustrativo que, lamentavelmente, está acontecendo em nossa cidade: Uma comunidade de praticantes da religião de Umbanda está sendo perseguida e molestada por elementos bolhinhas, fiéis obtusos da intolerância religiosa. Que vergonha. Esse obscurantismo não se coaduna com nossa cidade. Seguimos com os perfis. Os bolhas, eu classificaria como os que reconhecem o tamanho do mundo lá fora e lutam com afinco para saírem da bolhinha.

Por fim, os bolhões são os impacientes, que renegam bolhas e bolhinhas. Esses percebem e transitam um mundo imensurável que está além da política, além da esquerda e direita, além de ricos e pobres, além de qualquer tipo de preconceito, além do fanatismo religioso e ideológico, além da binaridade reducionista e, sobretudo, além de sua opinião.