Sou uma espécie de resquício neandertal que sentava em círculos para partilhar um alimento, uma bebida, uma conversa.

Venho da era das sensações e sorrisos sem emojis. Pertenço ao clã da paciência físico-presente, para a conquista do sexo oposto. Faço parte de uma legião do quinhão, onde o pouco era muito.

Derivo de uma estofa cujo senso crítico é forjado em livros e conteúdos científicos. Subitamente, surfei a onda da evolução e conheci o admirável mundo novo.

Ele é tecnologicamente fascinante, mas requer poder de adaptação a seu meio. A propósito, a lei da seleção natural diz que sobreviverão somente os mais fortes.

A frívola sociabilidade a que me reporto, se manifesta no meio ‘antropofágico’ das redes sociais, onde os mais fortes são, paradoxalmente, os mais ausentes e os mais fracos são, ironicamente, os mais expostos às imbecilidades e discussões rasas.

Lá digladiam-se os antagônicos protagonistas: de um lado os ‘esquerdopatas’ e de outro os ‘direitopatas’, na mais original representação provinciana de seus papéis.

Dessa enfadonha e violenta dialética, difícil saber o que se desnuda mais deprimente: a imbecilidade argumentativa da maioria de iletrados, com pouco ou nenhum banco de escola, ou a barbarização de ataques truculentos.

É desalentador observar a violência virtual coabitando, em essência, os menos adaptados a esse novo mundo.

O que se vê nas redes sociais atualmente, é um fiel retrato do clássico “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, cuja passagem nos sugere que, “se as almas fossem visíveis aos olhos, veríamos distintamente essa estranha coisa de cada um dos indivíduos da espécie humana corresponder a alguma das espécies da criação animal; e poderíamos reconhecer facilmente esta verdade, observada apenas pelos filósofos, de que, desde a ostra até a águia, desde o porco até o tigre, todos os animais estão no homem, e cada um deles está em um homem.Algumas vezes, vários deles ao mesmo tempo”.

Oportuna e complementar se faz aqui, a observação do amigo, escritor, advogado e colunista Raphael Rocha Lopes:

“Hoje, pelas redes sociais, muitos falam (escrevem) sem pensar e são doutores em quase tudo, donos da razão. Essas pessoas não conseguem refletir sobre pontos de vista diferentes e, não poucas vezes, a diferença de ideias se torna motivos para ofensas e agressões pessoais.

Racionalidade, infelizmente, não tem sido a tônica nas discussões pelo meio virtual. As pessoas perderam a serenidade e o poder da argumentação educada e inteligente”.

Enfim, é o niilismo intelectual em ascensão.

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