Parafraseando Nelson Rodrigues, olhando de perto ninguém é normal. No consultório volta ou outra vem o questionamento, a dúvida, será que sou normal?

Essa questão passa por todos os aspectos: os sentimentos, os comportamentos, as emoções, os desejos, a sexualidade. Acho nesse momento importante lembrar de onde vem este conceito, da normalidade.

Normalidade no conceito do dia a dia tem alguma relação com o conceito em estatística. De uma maneira bem simples, normal é aquilo que cai mais ou menos próximo da média de ocorrência geral.

Um exemplo: o homem brasileiro tem altura média de 1,73m. Existe um cálculo de desvio padrão, uma variância normal, para mais ou menos. Assim, um homem com 1,50m e outro com 2m são de alguma forma “anormais”, longe da média, e os dois já ouviram todas as piadas existentes a respeito.

Se olharmos dessa forma, percebemos que não há nada de certo ou errado com alguém por causa disso, mas que ser “anormal” pode ser incômodo às vezes, pela reação dos outros.

Não é ser o normal ou o anormal que faz de algo um problema. O valor de qualquer característica, emoção, pensamento, comportamento, não tem a ver com o quão comum ele é.

Nós, humanos, somos seres sociais, nós nos medimos o tempo todo pelos outros, e muitas vezes se destacar pela diferença nos coloca em maus lençóis.

É fácil perceber como pessoas incomuns podem ser isoladas do grupo: enquanto uma pessoa pouco competente na empresa pode ter sua vida dificultada, aquele que se destaca demais também faz os outros parecerem piores, e também pode sofrer dentro do grupo.

Aos poucos vamos aprendendo que ser diferente traz sofrimento, e aprendemos a esconder os pontos em que desviamos da média percebida nos nossos círculos sociais.

Nós passamos a dar valor para aquilo que é comum simplesmente porque é comum, e aprendemos a desvalorizar o que é incomum só porque é incomum.

E aqui voltamos ao consultório: como lidar com aquelas questões onde não somos ou não nos sentimos “normais”?

Terapia pode nos ajudar a aprender não só racionalmente, mas sentir, emocionalmente, que aquilo que pensamos, somos, sentimos não está errado só porque é incomum.

Podemos ter parâmetros diferentes para nos medirmos: bem-estar, autoestima, ética, consentimento, abertura, honestidade, diálogo, generosidade, para citar alguns.

Podemos descobrir que às vezes o que é comum pode ser prejudicial, e o que é anormal pode ser muito bom e motivo de orgulho, ou talvez descobrir que ser incomum não é nem melhor nem pior, só diferente.

Na sexualidade, podemos acabar percebendo que aquilo que mais relutávamos em abrir para um parceiro era exatamente o mesmo desejo que ele escondia de nós, ou pelo menos que, assim como nós, ele ou ela também tem os seus desejos mais escondidos.

E o que isto tem a ver com sair do armário? Falaremos disso na próxima coluna, mas já vou deixar uma dica: podemos ver que todo mundo tem algo incomum, e que talvez sinta vontade de esconder pelo medo do julgamento dos outros.

Se todo mundo tem algo de incomum, não seria o normal ser anormal?