Relacionamentos amorosos vivem numa tensão entre novidade e segurança. Nos apaixonamos porque estamos completamente interessados na vida daquela pessoa que não conhecemos, mas que nos encanta. Ficamos muito tempo com alguém porque nos sentimos seguros na presença dela, seguros para fazer planos, saber o que esperar.

Mas as duas coisas não convivem bem. Não existe brilho no olho sem novidade, e não existe novidade sem um certo risco. E não existe risco e segurança absoluta ao mesmo tempo. Não há como mudar e continuar igual.

Na segurança (e na comodidade que vem com ela), as vezes um dos parceiros perde o interesse sexual pelo outro. Talvez outro se sinta um tanto invisível na presença do marido ou da esposa, como se os olhos passassem sem realmente ver. A familiaridade gera uma certa apatia.

Muitos casais (especialmente mulheres em casais) tentam “apimentar a relação”. Introduzir alguma coisa nova, uma roupa, um cheiro, uma narrativa, mas essas tentativas costumam ser superficiais, restritas a um ou outro aspecto da vida, especialmente sexualmente.

O casal que faz tudo junto, não há mais por que conversar: os dois presenciam tudo ao mesmo tempo. Já preveem como o outro pensa. Já sabem todas as rotinas do que acontece no trabalho, frequentemente o único momento onde não estão juntos. Mal interagem, mas não conseguem se imaginar longe um do outro.

Talvez um dos dois não saberia o nome dos seus médicos, já que o outro marca suas consultas. Talvez uma não saiba o tamanho das suas roupas, compradas pela outra pessoa. Talvez não consigam se imaginar fazendo algo que não seja para o marido, esposa, ou para os filhos. São codependentes.

Algumas dessas histórias começam com duas pessoas que se apaixonam por pessoas inteiras, com suas próprias histórias, interesses, opiniões, vida, e aos poucos vão deixando de ser inteiras, para serem metades, que precisam de outra metade, formando uma coisa só. Outros já se sentem pela metade, e procuram desesperadamente outra metade para se sentirem inteiros.

Todos temos uma medida de carência, mas existe uma diferença entre se dar conta dela e desfrutar da companhia de outros, e mergulhar numa busca desesperada pela completude em outra pessoa.

Tanto os primeiros quanto os últimos não se dão conta que ao se tornar um só, se tornam também um ser sozinho. Não existem mais dois, existe um só. E sexo sozinho é masturbação. Não existe uma conversa com um só. Aquela sensação de que o outro olha e nem vê, é porque não reconhece ali um outro, só talvez como um reflexo. Olha para o outro com o mesmo interesse que olha para a própria barriga no espelho.

A solução não está em apimentar as coisas. A solução é lembrar que pessoas se apaixonam por outras pessoas, pessoas inteiras. A solução passa por ter seus próprios interesses, pensamentos, opiniões, atividades. Fazer coisas novas, fazer coisas com outras pessoas, ter algo novo para compartilhar com quem se ama. A solução passa por voltar a ser uma pessoa inteira.

Francisco Hertel Maiochi - Espaço Ciclos
Contato: (47) 3274-8937 | Instagram
Endereço: rua Coronel Procópio Gomes, 1575 - Jaraguá do Sul