Em tese, toda nova geração, com mais escolaridade, deveria chegar preparada para bem dirigir empreendimentos familiares.

Egressos de cursos universitários, pós-universitários, MBAs e equivalentes, no Brasil, ou até, no exterior, jovens, já adultos, voltam ‘"para casa" repletos de conhecimento e, alguns poucos, de ideias e projetos para o negócio familiar.

Infelizmente, há, ainda, o “outro lado da moeda”, na figura daqueles filhos adultos, acometidos pela “Síndrome de Peter Pan”. Voltam para casa e continuam se comportando como adolescentes, abrindo mão da maturidade, não assumindo responsabilidades, preferindo continuar dependentes dos pais, não optando pela independência econômica.

Assim, ficam inventando mais cursos aqui-acolá, estágios, visitas a parceiros ou não do negócio familiar, ou, ainda, novas experiências além-mar, que, de sabáticas, não tem nada.

Ou, ainda, destes, alguns querem “um tempo” para pensar, pôr as “ideias em ordem” e se “reencontrar”, tornando-se um legítimo “nem-nem”, um "neném", que nem estuda e nem trabalha.

Nestas disfunções da “Síndrome de Peter Pan” há sensível culpabilidade dos pais, pois filhos são frutos, menos da genética e de decisões pessoais, que da formação familiar, baseada em valores, princípios, missões de vida e, indispensavelmente, intenso ‘policiamento’ disto tudo.

Quando pais têm como missões de vida, em relação a filhos, propiciar não só escolaridade, patrimônio material/financeiro ou, ainda, negócio(s) em andamento, mas, também e, principalmente, educação (valores e princípios morais), certamente, os filhos darão correta continuidade ao legado herdado, pois pesará em seus ombros o receio de tornarem-se responsáveis, melhor, culpados pelo “fim da história” daquela empresa familiar.

Nesta desejada situação de filho ‘sucessor’ (multiplicador de patrimônio herdado), mais que ‘herdeiro’ (mero ‘desfrutador’), o retorno pós estudos acadêmicos e ingresso na estrutura da empresa familiar, provoca no pai incontornável saída da zona de conforto, pela necessária reacomodação a novo papel, agora no binômio mentor-mentorado.

Como toda mentoria passou de ‘transmissão’ de conhecimento para ‘compartilhamento’, isto é, transmissão em ‘via dupla’ (ida e volta), em busca da construção de novos conhecimentos, mais marcantes e sinergéticos (como que 1 + 1 = 3, etc.), há que haver ‘humilde sintonia’ entre pai e filho.

Assim, o pai com seus conhecimentos mais práticos e o filho com seus conhecimentos mais acadêmicos e, desejadamente, modernos/atualizados, têm sempre que “trocar figurinhas” entre si, pois nunca um conhecimento teórico é melhor que um prático, ou vice-versa. Até porque, teoria e prática se complementam, pois “toda teoria vem da prática” ou “toda prática vem da teoria” (“ovo ou galinha, quem veio primeiro?”).

Nenhuma formação acadêmica, por mais alto grau que tenha sido, pode abrir um gap, um hiato intransponível, em relação a quem vive há muito tempo “pondo as mãos na massa”. Há que se somar, compor, sinergizar. Para isso, há que haver respeito e humildade de ambas as partes (pai e filho), pois o aprendizado mútuo, em um relacionamento pessoal ou profissional, só se dá se os envolvidos tiverem consigo a máxima de Sócrates (469 a.C. - 399 a.C.): “quanto mais sei que sei, menos sei que sei”.

Enfim, unindo a teoria do filho (mesmo de nível acadêmico ‘top do top’, como um pósDoc) e a prática do pai (já validada, com sucesso, ao longo de anos/décadas) e levando em conta os diferentes níveis de apego (pai/mais emocional e filho/mais racional), a sucessão empresarial familiar se beneficia com o óbvio ululante: “a união faz a força”. Ademais, derruba o que pais antigos, parados no tempo, diziam para fragilizar ideias de filhos “super-estudados”: “parece que quanto mais se estuda ... mais burro se fica”.

Esse tempo... já era!!! Aliás, nunca deveria... ter sido!!!