Quem quer que exerça poder vira “vidraça” em alguma medida e momento, e é bom que seja assim, pois todo coletivo é composto de pessoas com trajetórias, ideias e visões próprias que devem ser consideradas.

Isto, também, porque vivemos em uma sociedade cada vez mais globalizada pela tecnologia que, ao mesmo tempo, conectando e aproximando, insere inúmeros dados como insumos fundamentais para tomadas de decisão, aumentando, assim, o risco de defasagem.

Ademais, situações de turbulência, tão comuns no cenário mundial, exigem decisões cada vez mais rápidas e, às vezes, impensadas.

Segundo a Bíblia, Deus nos dá o livre-arbítrio, isto é, “a capacidade de tomarmos decisões por conta própria”, não sob controle Dele e, muito menos, do destino. Ou seja, o nosso futuro depende de nossas escolhas.

Em oposição a esta ideia de um poder individual para decisões e ações, com liberdade de escolhas, Skinner(1) propõe que a genética e as experiências anteriores sejam, na realidade, as determinantes. Ou seja, a liberdade de escolha não é fruto do livre arbítrio, exercício intrínseco ao indivíduo, mas da sua reação ao ambiente e tem muito a ver com a inevitável busca do bem-estar individual, surgindo, assim, ainda, o desafio extra do equilíbrio entre interesses individuais e os coletivos.

E mais: Skinner(1) defende que decisões são influenciadas por um conjunto de contingências que envolvem, entre outros, a educação recebida, as prescrições morais incutidas e a modelagem do repertório comportamental. Ou seja, como ninguém é deixado livre para se desenvolver por si mesmo, a virtude moral raramente é produto de sua essência intrínseca, mas, sim, do entorno de reforçamentos.

Além disso, Birkman(2) observa que pessoas são elas mesmas só quando relaxadas, comportando-se diferentemente quando experienciam tensão. PhD em psicologia e ex-piloto de bombardeiro na Segunda Guerra Mundial, observou episódios recorrentes que o intrigavam: momentos em que seus companheiros, diante de forte tensão, desperdiçavam munições valiosas em alvos que percebiam que estavam lá, quando não estavam.

Em resumo, raramente se consegue usufruir do divino livre-arbítrio, tanto na hierarquia social como empresarial. Na realidade, somos traídos, muitas vezes, pelo que Birkman(2) denominou “percepção distorcida”, e levados a nos comportar como “marionetes” do meio atual e "robôs da inexorabilidade" do passado.

Isto, quem sabe, explica porque tanta gente preparada comete erros primários, em especial, em Brasília, dando origem a inúmeros contraditórios como desencontros de ideias, traições por deslealdade, falsos testemunhos, intrigas “entrincheiradas”, retóricas desrespeitosas e tantos outros comportamentos lamentáveis dos gestores públicos.

Enfim, parece não existir, na prática, o empoderamento do livre-arbítrio. Ou seja, utilizando-se de uma expressão popular, quase ninguém mais consegue ser “dono de seu próprio nariz”, não no sentido de posse, mas, sim, no de decidir onde enfiá-lo!

(1): SKINNER, B. F. O mito da liberdade. São Paulo: Summus, 1983

(2): BIRKMAN, R. Birkman Method - Personality Test. Retradução, 2016

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Emílio da Silva Neto

Dr. Eng. Industrial, Consultor/Conselheiro/Palestrante/Professor (*) Sócio da ‘3S Consultoria Empresarial Familiar’ (especializada em Processo Decisório Colegiado, Governança, Sucessão, Compartilhamento do Conhecimento e Constituição de Conselhos Consultivos e de Família). Doutor em Engenharia e Gestão do Conhecimento

Curriculum Vitae: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4496236H3
Tese de Doutorado: http://btd.egc.ufsc.br/wp-content/uploads/2016/08/Em%C3%ADlio-da-Silva.pdf
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