Vivemos tempos desafiadores. De uma forma global, enfrentamos dilemas éticos e as tensões da polarização. São inúmeros questionamentos que se apresentam diariamente para os quais não há respostas prontas e simples. Em meio a tantas perguntas, podemos sempre buscar suporte no conhecimento. É a nossa bússola para navegar em águas turbulentas e expandir os horizontes.

Um dos campos do saber que pode nos ajudar a refletir sobre os desafios do nosso tempo é a filosofia, a mãe de todas as ciências. A palavra derivada do grego significa amor à sabedoria e sua criação é atribuída a Pitágoras. Começar a pensar em seu conceito já é, por si só, prova do quão interessante ela é. Aliás, não há uma única maneira para defini-la. Há várias correntes. Para o professor Paulo Ghiraldelli, por exemplo, fazer filosofia é desbanalizar o banal.

No território filosófico, problematizamos conceitos e questões pertinentes aos seres humanos e suas relações na busca por aplicar racionalidade e crítica naquilo que todos enxergam, mas não veem. É um exercício de reflexão, de argumentação e de questionamento, no qual não há espaço para verdades absolutas.

O princípio da sabedoria passa por reconhecer a lição deixada há milênios por Sócrates: “Só sei que nada sei”. Quem reconhece isso, reconhece também que precisa sempre avançar. A reflexão filosófica é um movimento ad infinitum, para o qual sempre há algo a ser dito a respeito de pressupostos das mais variadas temáticas.

A filosofia, na sua essência, é promotora de reflexões mais abertas e autônomas, livres da doença intelectual do dogmatismo. Se for devidamente considerada e praticada, previne os riscos da alienação, da massificação, de abraçar “verdades absolutas” e de desprezar outros posicionamentos. Encaminha para o reconhecimento do diálogo e do respeito e da aceitação de que o outro pode pensar de forma diferente, sem ser visto como um inimigo a ser combatido.

A filosofia é extremamente urgente em todo e qualquer país que pretende se desenvolver. Basta analisar a história da humanidade e perceber os impactos positivas nas nações em que há um espaço maior para a reflexão. Sem o exercício do senso crítico, não há condições para avançar em um projeto de país. Sem questionar, ficamos reféns de crenças e opiniões impostas. E isso vale também para os profissionais, para que sejam capazes de exercer o engajamento social e reconhecer a noção de justiça. O que seriam dos juristas sem a fundamentação filosófica?

É por isso que no curso de Direito da Católica de Santa Catarina contamos com as disciplinas de Filosofia do Direito e Hermenêutica. Nossos acadêmicos são provocados a serem muito mais do que operadores do Direito, mas para nutrirem suas ações com reflexões. Em Filosofia do Direito, buscamos compreender a problemática da justiça com o apoio de uma base reflexiva e consistente. Estudamos grandes pensadores da história da humanidade, de Sócrates a John Rawls, autor do ótimo “Uma Teoria da Justiça”.

Para quem se interessou em começar a exercitar seus músculos filosóficos, deixo aqui mais duas dicas atuais. Em 2020, foi publicado pelo Michael J. Sandel, filósofo e professor de Harvard, um livro muito interessante, “A Tirania do Mérito: O que Aconteceu com o Bem Comum?”.

A terceira sugestão é a série espanhola “Merlí”. O protagonista, o professor que dá nome à série interpretado por Francesc Orella i Pinell, tem uma postura filosófica muito interessante. As três temporadas estão disponíveis no catálogo da Netlix. Essas obras farão o mesmo convite que faço a mim mesmo diariamente, e estendo a você, leitor: vamos pensar, questionar e progredir. Sempre.