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Empresas buscam crédito para operar, não para crescer

Foto: Freepik

Por: Marco Ribeiro Noernberg

14/10/2026 - 11:10

O crédito permite que empresas financiem máquinas, ampliem instalações e invistam em capacidade produtiva antes de obter o retorno desses projetos. Quando o acesso aos recursos fica mais caro ou incerto, parte dessas decisões perde espaço. O efeito pode ultrapassar o balanço das próprias empresas e limitar o crescimento da economia.

Uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada em 9 de outubro, dimensiona essa dificuldade. Entre as empresas industriais que enfrentaram obstáculos para obter crédito de curto ou médio prazo, 76% apontaram os juros elevados como um dos principais entraves. Nas operações de longo prazo, o percentual foi de quase 69%. O levantamento ouviu 1.701 empresas industriais e considerou as condições de financiamento entre fevereiro e julho de 2026.

O problema não se resume ao custo. Entre as empresas que buscaram contratar ou renovar financiamentos de longo prazo, 37,2% não conseguiram concluir a operação. Nas pequenas indústrias, o índice chegou a 48,2%. Para uma parcela relevante do setor, portanto, o desafio é conseguir acesso aos recursos, mesmo diante da disposição de contratar um financiamento.

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O destino do crédito traz outro sinal importante. Entre as empresas industriais que buscaram, contrataram ou renovaram financiamentos de longo prazo, 28,7% apontaram o capital de giro como principal finalidade, acima dos 23,6% que citaram a aquisição de máquinas e equipamentos. O dado mostra o peso das necessidades de caixa em uma modalidade de financiamento frequentemente associada a projetos de maior duração.

Recorrer ao crédito para financiar o capital de giro não é, por si só, um sinal de fragilidade. O alerta está na dificuldade de equilibrar as despesas correntes com os recursos disponíveis, especialmente quando os empréstimos são caros e o acesso a novas operações é incerto. Nesse cenário, financiar a rotina pode consumir parte dos recursos que seriam destinados à modernização e à expansão.

As empresas de menor porte enfrentam obstáculos adicionais. Com menos alternativas de financiamento e, muitas vezes, menor capacidade de oferecer garantias, elas ficam mais expostas às condições impostas pelos credores. Na pesquisa da CNI, 48,2% das pequenas indústrias que tentaram obter crédito de longo prazo não conseguiram contratar ou renovar as operações. Entre as médias, o índice foi de 48,1%; nas grandes, de 29,9%.

Uma eventual redução da taxa básica de juros não resolve esse quadro de imediato. O custo efetivo do financiamento também depende do risco de crédito, das garantias exigidas, dos prazos e das condições negociadas com as instituições financeiras. Para projetos cujo retorno se distribui ao longo de vários anos, essas variáveis podem determinar se o investimento sai do papel ou é adiado.

Os dados não permitem concluir que a indústria esteja deixando de investir apenas por causa do crédito, mas ajudam a identificar uma restrição importante. Quando o financiamento é difícil de contratar e caro de manter, as empresas têm menos margem para planejar a expansão. O efeito aparece não apenas no ritmo dos investimentos, mas também na modernização do parque industrial e nos ganhos de produtividade de que o país depende para crescer.

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Marco Ribeiro Noernberg

Sócio e Head de Research e Líder Advisor na Manchester Investimentos, com formação em Administração e especialização em Mercado de Capitais. Possui certificações PQO, CNPI-P, CGA e CFP®️, atuando em análise de investimentos e planejamento financeiro.