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Depois da Selic, o que vem pela frente?

Por: Marco Ribeiro Noernberg

23/09/2026 - 10:09 - Atualizada em: 23/09/2026 - 10:33

A Selic chegou a 13,75% depois de cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual. Agora, o mercado começa a olhar para os efeitos que os juros altos deixaram na economia e para a velocidade com que esses efeitos podem aparecer nos próximos meses.

O Focus desta semana trouxe uma combinação que merece atenção. A projeção para a Selic no fim de 2026 caiu de 13,75% para 13,50%, enquanto a estimativa para o IPCA subiu de 4,90% para 4,92%. A projeção para o PIB também recuou, de 1,89% para 1,88%.

A ata do Copom divulgada nesta terça-feira reforçou a percepção de que a atividade está perdendo ritmo. O Comitê apontou moderação no crescimento e destacou que os efeitos da política monetária estão aparecendo de forma mais clara, principalmente nos segmentos da economia mais sensíveis às condições financeiras.

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Esse processo já pode ser observado nos indicadores de atividade. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, abaixo dos 1,1% registrados nos três primeiros meses do ano. A intenção de investimento da indústria também recuou para 51,3 pontos em setembro, no quarto mês consecutivo de queda e no menor nível desde agosto de 2020.

O investimento é um dado particularmente importante. A redução dos juros melhora as condições de financiamento, mas a decisão de investir depende também da expectativa de demanda, dos custos e do grau de confiança das empresas. Se a atividade continua perdendo força, o efeito dos juros sobre o investimento pode demorar mais para aparecer.

Na inflação, o cenário ainda pede cuidado. A projeção de 4,92% para o IPCA neste ano continua acima da meta, enquanto as expectativas para os próximos anos também permanecem relevantes para a condução da política monetária.

É essa combinação que torna o próximo trecho do ciclo mais difícil de interpretar. A economia começa a responder aos juros altos, mas a inflação ainda não oferece ao Banco Central o conforto necessário para acelerar a redução da taxa.

O ambiente externo também não ajuda a simplificar a conta. O Federal Reserve elevou os juros americanos para a faixa de 3,75% a 4% em setembro. O comunicado da instituição destacou que a atividade americana segue em ritmo sólido, enquanto a inflação permanece elevada.

Para o Brasil, a diferença entre os ciclos de juros tem consequências para o câmbio e para o fluxo de capital. Também interfere na comparação que investidores fazem entre ativos brasileiros e americanos.

Nos investimentos, os efeitos começam a aparecer de maneira diferente entre as classes. Na renda fixa, a queda dos juros aumenta a importância do prazo e da taxa contratada. Uma remuneração elevada hoje pode não estar disponível mais adiante, mas a decisão também precisa considerar liquidez e risco de crédito.

Na Bolsa, juros menores reduzem o custo de capital e podem favorecer empresas mais sensíveis à taxa de desconto. Isso não elimina, porém, a necessidade de olhar para crescimento, geração de caixa, endividamento e expectativas de lucro.

O cenário fiscal continua sendo outra variável importante. Mudanças na percepção sobre as contas públicas podem pressionar os juros futuros e o câmbio, interferindo justamente nas condições financeiras que o Banco Central começa a aliviar.

Até aqui, os sinais apontam para uma economia que começa a sentir com mais intensidade os efeitos da política monetária. A questão é saber como essa desaceleração vai evoluir enquanto a inflação continua acima do desejado.

Para os investimentos, o próximo movimento relevante pode não estar apenas na Selic, mas na forma como atividade, inflação, juros futuros e resultados das empresas vão se ajustar a um ambiente de juros menores.

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Marco Ribeiro Noernberg

Sócio e Head de Research e Líder Advisor na Manchester Investimentos, com formação em Administração e especialização em Mercado de Capitais. Possui certificações PQO, CNPI-P, CGA e CFP®️, atuando em análise de investimentos e planejamento financeiro.