Depois de uma forte correção ao longo de agosto, a Bolsa brasileira recuperou parte das perdas na reta final do mês. O Ibovespa chegou a cair para 164,8 mil pontos no dia 14 e encerrou o pregão de 28 de agosto aos 175,7 mil pontos, após oito sessões consecutivas de alta. Mesmo com a volatilidade recente, o índice ainda chama atenção por um fator importante: as ações brasileiras continuam negociando com desconto em relação a outros mercados e às próprias médias históricas.
Um dos indicadores usados para avaliar esse desconto é o preço sobre o lucro, o chamado P/L. Em agosto, um levantamento citado pela Reuters apontava o Ibovespa negociando a cerca de 8,1 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, o segundo menor múltiplo entre os dez principais índices acompanhados pela instituição.
Isso significa que, mesmo depois da recuperação dos últimos pregões, os preços das ações brasileiras ainda incorporam uma percepção relevante de risco.
E há razões para isso. O Brasil continua convivendo com juros elevados, incertezas em relação às contas públicas e um cenário eleitoral que tende a aumentar a sensibilidade dos mercados às discussões sobre política econômica. A Selic está em 14% ao ano, após o Banco Central realizar um novo corte em agosto, mas as expectativas de inflação permanecem acima da meta.
Ao mesmo tempo, é justamente essa combinação que pode abrir espaço para oportunidades. Uma trajetória de queda dos juros, acompanhada por uma melhora na percepção sobre o cenário fiscal e pela evolução dos resultados das empresas, poderia reduzir parte do prêmio de risco atualmente embutido nos preços. Nesse cenário, a valorização da Bolsa poderia vir não apenas do crescimento dos lucros, mas também de uma reprecificação dos ativos.
Isso não significa, porém, que toda empresa negociada a múltiplos baixos esteja barata. O valuation precisa ser analisado em conjunto com a qualidade dos negócios, a capacidade de geração de caixa, o nível de endividamento e as perspectivas de crescimento. Uma ação pode negociar com desconto justamente porque o mercado espera uma deterioração de seus fundamentos.
Por isso, depois de uma correção relevante e de uma recuperação rápida, a discussão mais importante é entender o que os preços atuais já estão incorporando e quais fatores poderiam mudar essa percepção.
Para o investidor de longo prazo, esse olhar é especialmente importante. Em vez de tentar antecipar o próximo movimento do Ibovespa, faz mais sentido identificar onde existe uma diferença interessante entre o preço pago hoje e o valor que uma empresa pode entregar ao longo do tempo.
A Bolsa brasileira pode oferecer oportunidades interessantes, mas o momento exige mais seletividade na escolha dos ativos do que uma aposta sobre a direção do índice.