A redatora Bruna Martins Freitas, de Jaraguá do Sul, esteve na quinta-feira (27) na Câmara dos Deputados, em Brasília, apresentando o projeto EVA.bot. Desenvolvido por equipe jaraguaense, a ferramenta quer criar uma inteligência artificial para ajudar as mulheres a se protegerem da violência doméstica.

 

 

Mas para além do projeto – que é uma das iniciativas pioneiras no tema no país -, o discurso de Bruna durante seminário da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher trouxe uma reflexão sensível – ainda que dura - sobre a gravidade do problema e foi uma verdadeira aula de empatia e engajamento em defesa da causa.

O vídeo de Bruna na Câmara dos Deputados vem repercutindo nas redes sociais, desde esta quinta-feira.

“Eu discuto política para mulher desde que eu era criança sem saber que isso era política. Eu tinha menos de quatro anos quando minha mãe me ensinou a gritar”, ela contou.

Bruna começou sua fala expondo a diferença que existe na criação de homens e mulheres, sendo que estas precisam ser ensinadas desde muito cedo a se defender.

Mesmo assim, hoje, aos 26 anos, Bruna diz que tem medo de morrer. “Porque todo dia, pelo menos 13 mulheres são assassinadas no Brasil. Eu tenho medo de morrer quando saio na rua, eu tenho medo de morrer quando chamo um aplicativo de carro”, desabafou.

Diante dessa realidade assustadora, Bruna passou de um estado em que sentava e chorava ao pensar em como a população feminina – que é mais da metade do total da população brasileira – vem sendo dizimada, para um estado de luta e engajamento a partir da raiva.

“Se eu tenho essa percepção, porque vou guardar isso e transformar em choro se eu posso transformar em raiva. Eu luto com raiva pela política das mulheres porque acho que a raiva faz as coisas mudarem”, declarou.

Número de vítimas é maior que o número de habitantes de Jaraguá do Sul

Um dos motivos para a raiva justificada de Bruna é o fato de, em 2019, ainda ser preciso falar de política de segurança para mulheres porque estas ainda não existem. “Para mim, isso dói, e eu espero sinceramente que isso doa em cada um de vocês”, falou, dirigindo-se ao público do seminário – especialmente os homens.

Bruna na mesa da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, da Câmara Federal | Foto: Michel Jesus / Acervo Câmara dos Deputados

Em 2018, foram registradas mais de 73 mil denúncias de violência doméstica contra mulheres em todo o país. E esse número representa apenas um terço das mulheres que sofreram violência doméstica no ano passado.

“Isso quer dizer que a estimativa é que 221 mil mulheres tenham sido vítimas de violência doméstica, e é só a agressão física e sexual, sem contar agressão psicológica, emocional, patrimonial, e todas as outras que existem”, apontou.

O número das vítimas chega a ser maior do que toda a população de Jaraguá do Sul, de cerca de 180 mil habitantes. “É como se eu pegasse toda a microrregião do Vale do Itapocu, a violentasse, e deixasse só a cidade de Guaramirim, que é pequena, denunciar. É isso que a gente faz”, ilustrou.

EVA.bot ajudará mulheres a identificar sinais de risco

O resultado dessa raiva e do seu empoderamento - este ensinado pelos pais, principalmente por sua mãe - foi a participação de Bruna no projeto de criação da EVA.bot, um aplicativo para ajudar mulheres a identificarem sinais de violência doméstica, antes que possam acontecer e ou se tornarem mais grave.

No seminário – que teve como tema a tecnologia em defesa da mulher -, Bruna teve a oportunidade de apresentar o projeto, que ainda está no começo, ao lado de outras iniciativas semelhantes que vem surgindo no país.

Não dá para tratar o assunto com normalidade, diz Bruna

Mas o recado de Bruna, que vem viralizando nas redes, é o de que não dá pra ser apático quando o assunto é violência contra a mulher. Como Bruna demonstra no vídeo, não é possível falar do assunto sem se emocionar, sem gaguejar, sem se deixar envolver.

“A gente tem tratado esse assunto com tanta normalidade e isso me assusta. Quando tive o momento da minha fala, fiz um discurso bem emocionado porque eu não sei falar desse assunto de outra forma”, diz Bruna, ao OCP.

Assista ao vídeo

 

 

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