Paralisia Cerebral (PC) é uma deficiência mais comum na primeira infância, é caracterizada por alterações neurológicas permanentes que afetam o desenvolvimento motor e cognitivo, envolvendo o movimento e a postura do corpo. Ela pode ser causada por lesão cerebral durante a vida intrauterina; durante o nascimento; ou após o nascimento - causada por lesões cerebrais nos primeiros meses ou até os dois primeiros anos de vida.

No Brasil, estudos revelam que a cada 1.000 crianças que nascem, sete são portadoras de PC. O problema ou déficit neurológico de crianças com PC é caracterizado em ordem de frequência por espasticidade, discinesia, hipotonia e ataxia, entretanto, apresentações mistas não são incomuns.

De acordo com o neurologista, Dr. Vicente Caropreso, a paralisia cerebral pode acontecer em três momentos da vida da criança e isso está relacionado diretamente às suas causas.

Causas pré-natais

São lesões cerebrais que acometem os bebês antes do seu nascimento e, portanto, estão ligadas em sua maioria à saúde materna, como diabetes, doença tireoidiana, pressão alta, infecções causadas por vírus como a toxoplasmose, herpes e a rubéola, descolamento prematuro de placenta e tumores uterinos. Além do uso de substâncias tóxicas, claramente contraindicadas durante a gestação, como álcool, tabaco e outras drogas. Malformações fetais que atingem o sistema nervoso central também compõem a lista.

O médico explica que algumas causas podem ainda anteceder o período pré-natal e podem ser classificadas como pré-concepcionais, ou seja, os fatores aparecem antes mesmo do momento da concepção. “Histórico familiar de doenças neurológicas ou de epilepsia são exemplos”, destaca o neurologista.

Causas perinatais

São aquelas que acontecem no momento em que a mulher entra em trabalho de parto e se desdobram em até seis horas após a chegada do bebê ao mundo. O Dr. Vicente ressalta que alguns fatores cruciais e determinantes para o aparecimento da paralisia são a redução da pressão parcial do oxigênio e da concentração de hemoglobina durante o parto, a prematuridade, o baixo peso ao nascer, o trabalho de parto longo, o choque hipovolêmico (perda considerável de sangue causada por um acidente, por exemplo) e nó do cordão umbilical.

Causas pós-natais

A lesão, neste caso, pode ocorrer até que a criança complete dois anos de idade. Meningites, trauma cranioencefálico, estado de mal convulsivo e o surgimento de tumores no sistema nervoso central entram na lista das causas. O especialista explica que a partir dos 2 anos de idade, o sistema nervoso central dos seres humanos já se desenvolveu completamente, impossibilitando, portanto, o aparecimento de comprometimentos motores relacionados à paralisia cerebral.

As características específicas de cada tipo de Paralisia Cerebral:

  1. Paralisia Cerebral Espástica (cerca de 70% a 80% dos casos);
  2. Paralisia Cerebral Discinética ou Atetóide;
  3. Paralisia Cerebral Atáxica;
  4. Paralisia Cerebral Hipotônica;
  5. Paralisia Cerebral Mista.

A PC pode se apresentar em diferentes graus:

  • Nível I: A criança anda sem limitações;
  • Nível II: A criança apresenta alguma dificuldade para correr, pular, andar em terrenos irregulares e subir escadas sem apoio;
  • Nível III: A criança precisa de algum apoio para andar, como muletas ou andador.

Diagnóstico

A PC pode ser identificada por sinais clínicos, e dependendo da apresentação clínica podem ser necessários a tomografia computadorizada e a ressonância magnética. Além disso, geralmente são solicitados o eletroencefalograma, exames laboratoriais e testes genéticos, além de outros menos comuns.

Tratamento

O tratamento geralmente envolve uma equipe multidisciplinar com neurologista, ortopedista, odontólogo, psicólogo, fisioterapeuta, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. O especialista explica que a introdução de protocolos intensivos como o pediasuit e therasuit, além de salas de estimulação neurossensorial, vieram para melhorar o prognóstico das crianças com PC, além da hidroterapia e equoterapia.

“Envolve também entidades como as APAEs, AMAs, além de clínicas com equipe multidisciplinar e até hospitais especializados. Para muitos casos de PC estão indicados procedimentos cirúrgicos como alongamentos de tendões e medicamentos específicos para relaxamento muscular, que variam conforme os casos se apresentam”, complementa Dr. Vicente.

Desafios da medicina

Dr. Vicente frisa que o grande desafio para reduzir casos de PC, é prevenir nascimentos prematuros e de baixo peso, logo, o acompanhamento pré-natal é um fator decisivo. Segundo ele, ambulatórios de gravidez de alto risco, hospitais com equipes completas de atenção materno-infantil são fundamentais e a presença de atendimento neonatal é imperiosa.
Ele ainda destaca que a prevenção é tudo.

“A recuperação dos casos de PC está ligada a um alto custo social e com graves perdas financeiras para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para as famílias. Esta é mais uma face perversa de nossa sociedade, pois os casos mais graves geralmente são de pessoas de baixa renda e com difícil acesso ao atendimento ideal das gestantes e de seus filhos”, finaliza o neurologista.

Sobre o especialista

O Dr. Vicente Caropreso (CRM-SC 3463 e RQE 618) atende no centro de Jaraguá do Sul. É médico neurologista desde 1983, voluntário da Apae de Jaraguá do Sul. É referência estadual dos Agravos Epidemiológicos Botulismo e Doença de Creutzfeld-Jacob (DCJ) e é médico honorário do Hospital e Maternidade São José.