Os tabus são definidos por convenções sociais, religiosas e culturais. São convenções impostas com o objetivo de limitar a prática de determinados atos ou evitar falar de assuntos polêmicos, por exemplo. Refletir sobre proibições e comportamentos que as pessoas impõem umas às outras, e que cada uma determina a si mesma, pode ajudar a transformar ideias e atitudes, ou seja, para quebrar tabus é preciso conhecer de onde vêm, o que causam e não nos privarmos de discussões e debates, é o que diz a ginecologista e obstetra, Dra. Thaís Lebtag.

Ela listou e descreveu os principais tabus do universo feminino, com o intuito de repensarmos as nossas privações. Confira!

1- Ter o corpo perfeito

O padrão de beleza considerado ideal varia de acordo com a época e a cultura. Não é de hoje que as sociedades são bastante competentes ao impô-lo às mulheres que cometem as maiores loucuras para alcançá-lo. Assim, elas passaram a montar o próprio corpo, elegendo itens desconectados entre si, mais ou menos como fazemos ao escolher acessórios para um carro novo.

Não devemos recriminá-las; na ânsia de serem aceitas, correm atrás do que se espera delas, reproduzindo um comportamento que lhes é imposto desde a infância.

Os meios de comunicação, por sua vez, exploram a imagem da mulher perfeita, linda, realizada e feliz. Sabem muito bem que associar beleza e felicidade é uma receita, há tempos, bastante lucrativa.

A indústria da beleza também ganha com o padrão estabelecido. No Brasil, somos campeões mundiais de cirurgias plásticas estéticas e o segundo maior mercado consumidor de cosméticos do mundo. Procedimentos estéticos e produtos de beleza vendem a ilusão de que poderemos alcançar, desde que tenhamos dinheiro, um padrão de beleza inquestionável. Não à toa, também somos um dos países com mais casos de distúrbios alimentares no mundo.

Será que realmente desejamos que nossas meninas passem a vida perseguindo o corpo perfeito? Que gastem tempo, dinheiro e saúde atrás de um padrão de beleza que, na maioria das vezes, nada tem a ver com o delas? Abdicaremos definitivamente da graça da diversidade de biótipos?

Somos responsáveis por lhes vender uma mentira ao fazer-lhes acreditar que a felicidade está no corpo dito perfeito. Na verdade, poucas conseguirão conquistá-lo. As que chegarem lá, não serão mais amadas nem terão uma vida melhor. O resultado dessa mentira? Frustração e autoestima baixa, um prato cheio para que elas sejam alvos fáceis de uma sociedade que teima em desvalorizar a mulher das mais variadas formas.

Em vez disso, deveríamos ensinar-lhes a viver com saúde, respeitando e aceitando o próprio corpo e suas características. A autoestima não é algo dado, mas construído por meio de vivências positivas que reforcem o amor próprio e a confiança em si.

2- Mamilos

Mulheres são ensinadas a esconder os seios desde o início da puberdade, quando estes começam a se desenvolver. Esta desigualdade está muito vinculada a como os corpos das mulheres são vistos como atrativos sexuais e como nós temos que protegê-los para não serem violados, ou para que as mulheres não sejam consideradas 'fáceis', 'disponíveis sexualmente' — e assim também ficarem sujeitas a situações de violência ou serem acusadas de estarem 'desrespeitando' o que se espera de uma mulher.

Algo que também gera bastante discussão e envolve não apenas os mamilos, mas os peitos femininos no geral, é o ato de amamentar em público. Muitas vezes, isso é visto como algo inadequado de se fazer, porque causa constrangimento nas outras pessoas. As mulheres têm o direito de amamentar, e os seios têm esta função também. É um direito que deve ser respeitado.

3- Menstruação

Quem é, afinal de contas, o homem citado na expressão "Tá de chico?". Na verdade, a frase não se refere a nenhum Francisco específico para aludir à menstruação. Em Portugal, "chico" é sinônimo de "porco" - por isso temos em nosso vocabulário a palavra "chiqueiro". Ou seja, trata-se de uma forma nada lisonjeira de relacionar a menstruação à imundície.

Vergonha, nojo, mitos e superstições ainda são comuns quando o assunto é o ciclo menstrual.

Imagine só: em vez de ficar pensando que sangue menstrual cheira mal (mito!), ou que é perigoso lavar os cabelos durante a menstruação (outro mito) ou, ainda, que o sexo não é a mesma coisa (é diferente, mas também é válido), que tal começar a pensar que é um período especial, que traz a oportunidade de um maior autocuidado?

A experiência com o absorvente descartável (que é abafado, tem plástico e fragrâncias sintéticas que alteram o cheiro do sangue menstrual) ajuda a alimentar essa relação de nojo em relação ao ciclo menstrual. Esses produtos foram inseridos no mercado como algo mais higiênico, mais prático, de maior status social. Por isso, muitas mulheres entendem que lavar absorventes seria
um regresso, uma volta no tempo. Por outro lado, experimentar os ecoabsorventes (de pano), as calcinhas absorventes ou o
coletor menstrual pode transformar a maneira como as mulheres lidam com esse período.

A gente fala muito sobre naturalizar a menstruação, ou seja, sobre vivê-la da forma mais natural possível.

4- Pelos

Quem tem medo dos pelos corporais femininos? Por que eles tanto incomodam? Por que são tão ofensivos, sujos, anti-higiênicos, imorais, obscenos, pervertidos? Exceto, claro, os pelos da cabeça, definidores de feminilidade e gastos em produtos e serviços.

Mas a questão é que os pelos existem porque são biologicamente importantes para o corpo humano. Logo, não poderiam nem ser anti-higiênicos, já que é algo natural. Convencionalmente, fomos ensinados a entender que pessoas peludas são “porcas”, “sujas”, “fedidas”, “preguiçosas”.

Outro tabu é a ligação do feminismo com os pelos. Porque algumas feministas ostentam suas axilas peludas por aí? Porque elas querem! E porque é exatamente isso que o feminismo defende. Não os pelos, mas a liberdade de você poder fazer o que quiser com eles e com qualquer outra parte do seu corpo e da sua vida. É sobre ter controle, sobre decidir e ter autonomia. É legal ter pelos, assim como é legal não ter também. Mas o mais legal de tudo é poder ter o livre-arbítrio para tomar a decisão que mais te agrada como pessoa.

Além disso, algumas mulheres fazem questão de mostrar que não se incomodam com seus pelos corporais porque esse ato ainda revolta tantas pessoas e levanta altas reflexões sobre padrões de beleza. Por que os pelos corporais nos homens são socialmente mais aceitos que os pelos corporais nas mulheres? Não é tudo pelo, afinal?

5- Perder a virgindade

O mito e a pressão social que existem em torno do hímen ainda são muito grandes e causam diversos problemas para muitas mulheres. Elas crescem em um ambiente preconceituoso, onde muitas famílias ainda não sabem como lidar com o assunto e tratam a virgindade como um tabu.

A importância do hímen na sociedade atual não é tanta quando comparada a vinte, trinta anos atrás. Muito depende também da sociedade em que se está inserido. Países como Egito, Índia e Irã possuem muito forte em sua cultura a realização de testes de virgindade com que a prática está diretamente associada a suas crenças religiosas.

A educação sexual surge como uma possibilidade para que os jovens possam explorar sua sexualidade sem amarras, sabendo mediar todos os mitos, verdades e limitações do seu próprio corpo, e, no futuro, podem evitar correr uma série de riscos, prejudiciais tanto para a saúde mental quanto física.

Não se perde virgindade, se ganha sexualidade. Nenhuma menina nasce pronta, com ideias formadas acerca de si e do mundo. Cabe a nós a dura tarefa de educar e ajudar a criar mulheres que creiam nelas mesmas, amem-se e respeitem-se.

Sobre a especialista

A Dra. Thaís Straliotto Lebtag (CRM/SC 14849 e RQE 12.383) atende no Hospital e Maternidade Jaraguá, na rua dos Motoristas, 120. E também na Policlínica Rio Branco, na rua Barão do Rio Branco, 207, 1º andar, sala 05. Contato pelo telefone (47) 3275-1063.