Colonização alemã: impactos históricos e culturais em Jaraguá do Sul

Foto: Divulgação/ Museu Wolfgang Weege

Por: Maria Luiza Venturelli

15/07/2024 - 10:07 - Atualizada em: 15/07/2024 - 14:37

“Ein Prosit, ein Prosit der Gemütlichkeit”, que em alemão significa “um brinde, um brinde ao ambiente acolhedor”, é uma expressão que simboliza a colonização alemã no Brasil, especialmente em Jaraguá do Sul.

A história é repleta de tradição, e resultou em impactos culturais, sociais e econômicos que persistem até hoje, pois os imigrantes alemães trouxeram para a região não só a língua, mas também diversos costumes.

O marco oficial do afluxo de imigrantes de língua alemã foi 25 de julho de 1824, com a fundação da colônia de São Leopoldo (RS). Em janeiro, porém, o navio Argus já aportava no Brasil com 284 passageiros. Em 2024, este acontecimento memorável completa 200 anos.

“Chegamos ao destino em 13 de janeiro de 1824, com mais pessoas a bordo do que partiram de Brecherbach, pois além de dois mortos, houve 16 nascimentos”, escreveu o pastor luterano Friedrich Oswald Sauerbronn (1784-1864) aos seus amigos que ficaram no Velho Mundo. Ele estava relatando a chegada ao Rio de Janeiro do navio Argus, que trouxe ao Brasil 284 imigrantes de língua alemã, inclusive o próprio pastor.

De acordo com informações apontadas pela Prefeitura de Jaraguá do Sul, a imigração alemã para o sul do Brasil foi incentivada pelo governo imperial brasileiro por razões estratégicas e econômicas.

Áreas de florestas nas províncias meridionais, como Rio Grande do Sul e Santa Catarina, foram destinadas para colonização com o objetivo de abrir vias de comunicação entre o litoral e o planalto. Essas regiões foram escolhidas para estabelecer pequenos proprietários livres que cultivassem a terra com suas famílias, sem interesse no trabalho escravo ou na criação de gado.

Foto: Divulgação/InfoEscola

Além disso, o governo imperial enfrentou pressão dos grandes proprietários de café em São Paulo para não conceder terras a estrangeiros nas áreas cafeeiras, resultando na concentração de colonos em outras regiões.

Colonização alemã na região sul

Blumenau, aproximadamente em 1900. Foto: Divulgação/brasil-alemanha.com

A imigração aumentou em Santa Catarina a partir de 1848, devido às dificuldades sociais na Europa. Johan Jacob Sturz, cônsul geral do governo imperial brasileiro, foi fundamental na promoção da imigração alemã. Em 1848, um contrato entre os governos alemão e brasileiro garantiu melhores condições para os imigrantes.

Os primeiros colonos em Santa Catarina se estabeleceram na região de São Pedro de Alcântara, cerca de 36 km de Florianópolis, em 1829. Em 1850, o presidente da província, Dr. João José Coutinho, aprovou projetos da Sociedade Colonizadora de Hamburgo.

A colonização começou por São Francisco do Sul. Joinville, inicialmente chamada de Colônia Dona Francisca, recebeu muitos imigrantes alemães entre 1851 e 1856. Blumenau, fundada em 1850 pelo Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau, também é uma colônia importante. Em 2 de setembro de 1850, os primeiros 17 colonos chegaram à região.

Outras colônias importantes incluem Itajaí-Brusque (1860) e Ibirama (1899). Essas colônias cresceram e se tornaram cidades importantes em Santa Catarina, contribuindo para a diversidade cultural e o desenvolvimento econômico da região.

Chegada em Jaraguá do Sul

Centro do Distrito de Jaraguá nos anos 1920, onde hoje fica a conexão entre a avenida Marechal Deodoro da Fonseca e a rua Procópio Gomes de Oliveira. Foto: Divulgação/ Acervo do Arquivo Histórico de Jaraguá do Sul

A colonização alemã em Jaraguá do Sul desempenhou um papel significativo na formação da cidade. Os registros históricos indicam que, em 1912, dos 8 mil habitantes de Jaraguá, 4,5 mil falavam alemão, representando 57% da população. Esse dado destaca a influência considerável dos imigrantes alemães na região.

A colonização começou no final do século XIX, com diversas famílias adquirindo lotes de terra vendidos pela comarca de Joinville, liderados pelo Coronel Emílio Carlos Jourdan.

Algumas das primeiras famílias a se estabelecerem foram a família de Maximiliano Schubert em 1889, João Gotlieb Stein em 1890, Emílio Horst em 1893, a família Kanzler em 1895 e Carl Vasel em 1912. Essas famílias tiveram papéis importantes no desenvolvimento inicial da comunidade, com muitos descendentes deixando legados duradouros, como escolas que levam seus nomes.

A comunidade de Rio da Luz, por exemplo, viu a chegada de várias famílias alemãs, como os Dallman, Lemke, Lindermann, Böeder, Döeger, Mathias, Hoffmann e Hornburg. A Escola Rio da Luz Vitória foi uma das primeiras instituições educacionais da região, com professores que preservaram a identidade cultural da comunidade alemã ao longo dos anos.

A presença alemã em Jaraguá do Sul é visível até nos cemitérios locais, onde muitos sobrenomes refletem a herança dos colonizadores. Nomes como Borchardt, Pasold, Siewerdt, Grützmacher, Fischer e Konell são comuns, evidenciando a forte presença e influência alemã na região.

Tradições

Foto: Arquivo OCP News

Jaraguá do Sul é profundamente marcada pela colonização germânica, cujas influências são visíveis até hoje. A arquitetura de bairros como Rio da Luz e Barra do Rio Cerro exibe o estilo enxaimel, típico das construções alemãs. Exemplos são a Casa do Colonizador e o Museu Wolfgang Weege, ugares que mantêm a estética das vilas europeias, reforçando a herança cultural dos imigrantes.

Foto: Divulgação/ Museu Wolfgang Weege

A cultura germânica também se manifesta em festas como a Schützenfest, que celebra as tradicionais sociedades de tiro. O evento anual reúne competições de tiro, desfiles, música, dança e culinária alemã, atraindo milhares de visitantes. As sociedades de tiro, conhecidas como Schützenvereine, foram estabelecidas pelos imigrantes para promover o esporte e servir como centros sociais, e continuam ativas até hoje.

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Maria Luiza Venturelli

Jornalista apaixonada por contar histórias inspiradoras, formada pela Faculdade Ielusc